sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Um Filme, Uma Mulher"

A autora do blogue "Girl on Film", Sofia Santos, convidou-me a dissertar sobre uma rubrica interessante do seu blogue intitulada "Um Filme, Uma Mulher". 
Isto é, uma rubrica na qual o convidado aborda um filme específico em que uma mulher desempenha uma personagem feminina deveras relevante (pelos mais variados motivos). 
A minha opção foi escrever sobre o filme "Alexandra" de Sokurov. Para ler aqui.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

100 anos de Stravinsky

Não é todos os dias que se comemora uma efeméride cultural desta importância: hoje, dia 29 de Maio, passam 100 anos exactos da estreia bombástica da obra musical e coreográfica "A Sagração da Primavera" de Igor Stravinsky. Esta obra é uma peça musical (curta, 33 minutos) absolutamente revolucionária e influente em todo o século XX. 
O maestro Leonard Bernstein considerava que era a obra que personificava o modernismo estético. E não podia ter mais razão. A música poderosa de Stravinsky rompeu com todos os cânones estabelecidos até então, ao nível do ritmo, da forma, da dinâmica e dos timbres. Frenética na sua avalanche sonora e imprevisível na linguagem artística, "A Sagração da Primavera" constitui, ainda hoje, uma peça musical de puro fascínio e perplexidade.
Não admira por isso que, na data da estreia - 29 de Maio de 1913 - apesar ter sido na década de grande fervilhar artístico das vanguardas, a música de Stravinsky e a coreografia ousada de Nijinsky tenham causado tanta revolta popular e tanta incompreensão até no meio musical erudito.
--------- 
Eis uma recriação da coreografia original apresentada em Paris há precisamente 100 anos:

Buster Keaton na "Twilight Zone"



Talvez não seja algo que toda a gente conheça, mas o actor e realizador Buster Keaton – génio da comédia muda burlesca a par de Charlie Chaplin – protagonizou um episódio da famosa série televisiva “Twilight Zone”.
Foi em 1961, tinha Keaton 65 anos de idade. O episódio em causa tinha por título “Once Upon a Time” e conta a história de um vulgar homem que vive no final do século XIX e que é transladado para meados do século XX através de um capacete que permite viajar no tempo. “Once Upon a Time” tem 25 minutos e a primeira metade é a mais interessante porque é aquela na qual Buster Keaton se sente como peixe na água.
Ou seja, como a acção se desenrola no final do século XIX, a narrativa decorre como se de um filme mudo se tratasse, sem palavras e muitos gags visuais.
A segunda parte, já com diálogos e sonoplastia, é mais desequilibrada mas, no cômputo geral, este episódio da célebre Twilight Zone cumpre na ousadia de uma fórmula original: juntar a ficção científica, o mistério e o humor burlesco.
E claro, por ser também um dos últimos momentos de brilhantismo no pequeno ecrã de Buster Keaton – só suplantado, 4 anos depois, por essa maravilhosa curta-metragem chamada “The Railrodder”.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Músicas transformadas em livros

E se alguém se lembrasse de transformar em livros as músicas de bandas famosas? Pelos vistos, esse alguém já existe e chama-se Simon James, artista e designer residente em Londres. 
A ideia é deveras original: Simon James pegou em títulos de músicas de bandas como The Smiths, Joy Division, The Cure, Radiohead ou Kraftwerk (sobre a banda alemã ver aqui), e transformou-os em lombadas de livros de estilo 'vintage'. É como se cada música destas bandas correspondessem ao título de um romance.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Kim Novak


Admito a minha ignorância (nem sempre "sei demasiado" como sugere o título do blog): desconhecia que a actriz Kim Novak ainda era viva. Daí a minha surpresa ao vê-la, exuberante, no festival de Cannes. Novak tem actualmente 80 anos bem preservados e deslocou-se a Cannes para ser homenageada pela sua interpretação da loura fria (então com 25 anos) no mítico "Vertigo" (1958) de Alfred Hitchcock (filme que foi projectado em cópia restaurada).
Kim Novak fez aparições fugazes no cinema até 1991, mas desde há muitos anos que se dedica à pintura e vive tranquilamente com o seu segundo marido na costa do Pacífico.

domingo, 26 de maio de 2013

Malick repetitivo



Quando Malick regressou depois de 20 anos sem fazer um único filme, gostei do que vi: "A Barreira Invisível" (1998) e mais tarde "O Novo  Mundo" (2005). Já torci a orelha com "A Árvore da Vida" (2011), por achar que era uma meditação filosófica inócua e demasiado formalista. Agora que acabei de ver "To The Wonder" ("A Essência do Amor") fiquei com a nítida sensação que Malick precisa de fazer nova longa pausa para refrescar as ideias.
Terrence Malick parece que se tornou num evangelista de uma seita qualquer. Usa e abusa de clichés que já não se aguentam (que o próprio criou e se alimentou deles): contei largas dezenas de planos com o sol a espreitar por detrás de qualquer coisa (nascer e pôr-do-sol são uma especialidade do realizador), as personagens (mulheres) a correr, saltar e a tocar em flores e campos de trigo, a câmara ao ombro atrás dos actores, fotografia bonitinha estilo postal ilustrado, musiquinha de violinos a acompanhar, voz off a sussurrar chavões new-age para dar "profundidade" ao tema do amor e da perda, montagem sempre irrequieta e imprevisível, o Javier Bardem ridículo e nada credível como padre, o Ben Affleck sem dizer uma única palavra durante todo o filme, divagações narrativas sem estrutura consistente...
Ou seja, o realizador recorreu a uma fórmula cinematográfica gasta e que chega a irritar de tão repetitiva e sem surpresas. São chavões e lugares-comuns a mais num cineasta que se julgava especial.
Veremos se Malick consegue renovar a sua linguagem e surpreender com o seu próximo filme...
--------------
Nota: agora percebo melhor a opinião negativa que o realizador português João Salaviza tinha de "A Árvore da Vida".

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O grande Jerry em Cannes



O último génio da comédia burlesca ainda vivo, Jerry Lewis, foi ao festival de Cannes apresentar o seu último filme (como actor): “Max Rose”, de Daniel Noah. Aos 87 anos, Jerry interpreta um velho pianista viúvo que relembra 65 anos de um casamento feito de mentiras inesperadas.
Jerry Lewis chegou a Cannes e arrasou. Sempre bem disposto, com energia contagiante e alvo de veneração por parte do público e e da crítica, o actor e realizador mostrou toda a sua vitalidade. Na conferência de imprensa acerca do filme (que vi na íntegra aqui), Jerry Lewis refere que o seu regresso aos filmes se deveu ao “de ter lido o melhor guião dos últimos 40 anos”.
No meio de brincadeiras e provocações que geraram risos e gargalhadas na plateia (como quando respondeu “Está morto, sabia?” a um jornalista que lhe perguntou sobre Dean Martin), Jerry Lewis foi interpelado por um jornalista que lhe fez uma questão muito interessante: “Qual foi o primeiro filme que viu que o fez rir e o primeiro que o fez chorar”.
Jerry respondeu prontamente que o primeiro filme em que se riu foi “Modern Times” (1936) de Charlie Chaplin, que viu "centenas" de vezes. E o primeiro filme que lhe provocou lágrimas foi o clássico drama romântico “Camille” (1936) de George Cukor com Greta Garbo e Robert Taylor (curiosamente - ou talvez não - os dois filmes são do mesmo ano).
Jerry Lewis ainda disse que ao longo da vida viu muitos filmes que o fizeram chorar, e que os realizadores que conseguem fazer chorar o espectador têm algo de especial.
Grande Jerry.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O "êxtase da mente"




O que têm em comum Raymond Chandler, John Cheever, Tennessee Williams, Dylan Thomas, Dorothy Parker, Edgar Allan Poe, Baudelaire, Paul Verlaine, Truman Capote, Jack Kerouac, William Faulkner, Charles Bukowski (na imagem), Graham Greene, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Fernando Pessoa, Ernest Hemingway, Hunter S. Thompson e Jack London?
Todos foram grandes escritores e grandes... alcoólicos. E são apenas alguns exemplos.

Dizia Jack Kerouac: "Quanto mais velho eu fico, mais bêbado me torno. Porquê? Porque eu gosto do êxtase da mente." Enquanto que Hunter S. Thompson defendia: "Eu odeio recomendar drogas, álcool, violência, ou insanidade para qualquer um, mas isso tudo sempre funcionou comigo."

O que farão os escritores contemporâneos para estimular o tal "êxtase da mente" de que falava Kerouac?...

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O que diz Tarkovski #3

"A grande função da arte é a comunicação, uma vez que o entendimento mútuo é uma força que une as pessoas, e o espírito de comunhão é um dos mais importantes aspectos da criação artística."

terça-feira, 21 de maio de 2013

O regresso de Jodorowsky!

É um dos filmes mais esperados do festival de Cannes: ao fim de 21 anos de inactividade, o realizador chileno Alejandro Jodorowsky apresenta-se com "La Danza de La Realidad", o seu novíssimo trabalho. 
Jodorowsky é um dos cineastas mais originais e visionários da segunda metade do século XX (sobre ele escrevi isto). Nasceu em 1929 e apenas realizou sete longas-metragens, qual delas a mais surrealista, a mais bizarra e iconoclasta (misturando sexo, violência, western, magia negra, sonhos, mitologia, simbolismo, sangue e religião). 
Agora voltou, quase sem prévio aviso, para mostrar um filme autobiográfico com o belo título "A Dança da Realidade". O circunspecto jornal inglês The Guardian refere que se trata de uma obra que mistura o imaginário visual de Kusturica, Tod Browning e Fellini. E vendo o trailer do filme, percebe-se esta mistura de referências.
Seja como for, a nova obra de Jodorowsky está destinada - como tudo o resto que fez antes - a dividir apaixonadamente as opiniões: o espectador ou fica fascinando com os devaneios visuais e narrativos do cineasta ou sente repulsa quase imediata.
Nota: a banda sonora é assinada pelo filho do cineasta, Adan Jodorowsky.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mara

Para quem duvidava da beleza e feminilidade da actriz Rooney Mara, ei-la como se apresentou hoje no festival de Cannes:

Cinéfilo turista

O turista cinematográfico Hervé Attia é um turista muito original. É também um realizador amador original: Hervé visita locais de filmes famosos e, mediante comparações plano a plano, monta os seus vídeos comparando o estado actual desses locais com os da época das filmagens. No geral, cada vídeo de Hervé tem 12 minutos de duração, suficientes para mostrar e comparar os locais de filmagens com a maior minúcia possível. Só um grande cinéfilo, com muita paciência e abnegação, conseguiria um trabalho desta natureza quase obsessiva.
No seu canal do Youtube existem dezenas de exemplos (filmes de todas as épocas, dos clássicos aos mais comerciais).
Veja-se este exemplo do clássico "Os Pássaros" do mestre Hitchcock:

(Última) Nota de Bresson #30

"Duas espécies de filmes: os que empregam os meios do teatro (actores, encenação, etc) e se servem da câmara para 'reproduzir'; e aqueles que utilizam os meios cinematográficos e se servem da câmara para 'criar'.

sábado, 18 de maio de 2013

A filha de Ian Curtis



Hoje, 18 de Maio, assinalam-se 33 anos da morte de Ian Curtis, carismático líder e vocalista da banda Joy Division. E ontem revi no canal Fox Movies o filme biográfico "Control" (2007) de Anton Corbijn. Sobre este filme escrevi tudo neste post, e sobre o impacto que a música dos Joy Division teve em mim escrevi isto.
Depois de rever o brilhante filme de Anton Corbijn, suscitou-me a curiosidade de saber o que faz hoje a filha do vocalista da banda, Natalie Curtis. Natalie tem a mesma expressão dos olhos de Ian, um olhar melancólico que parece ter herdado do pai. Tentou seguir música e aprender piano, mas nunca teve talento nem predisposição. 
Neste momento Natalie Curtis tem 34 anos e é uma conceituada fotógrafa na Inglaterra. Interessa-se por fazer retratos de cidadãos comuns mas também de personalidades da música. 
Eis o seu site e trabalhos fotográficos da filha de Ian Curtis. 

Cannes ao rubro

É algo completamente inédito nos anais do mais importante festival de cinema do mundo: o festival de Cannes vai só com dois dias e já regista dois acontecimentos improváveis: um roubo de jóias que seriam usadas pelas celebridades (facto que imita a história do filme de Sofia Coppola exibido um dia antes!) e disparos de arma de fogo que interromperam abruptamente uma entrevista com o actor Christoph Waltz. 
Que mais poderá acontecer?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Hitchcock predador sexual?



"The Girl" é um telefilme realizado por Julian Jarrold para o canal HBO Films que retrata a relação do cineasta Alfred Hitchcock com a actriz Tippi Hedren durante a rodagem do clássico "The Birds" (1963).
Neste filme, Toby Jones encarna um convincente Hitchcock (mais convincente do que Anthony Hopkins no filme "Hitchcock"): conseguiu quase na perfeição imitar os trejeitos do realizador, a pose e a forma tão peculiar de falar (demorava 4 horas na maquilhagem). Por sua vez, Sienna Miller interpreta a loura Tippi Hedren, com grande personalidade e carisma. 
"The Girl" é baseado no livro de Donald Spoto sobre a conturbada relação que Hitchcock manteve, ao longo da sua carreira, com as suas actrizes. O filme não é nada condescendente para com Hitch, uma vez que mostra um homem com uma relação turbulenta (e ciumenta) com a sua mulher Alma Reville e, mais importante, quer provar que o realizador era um implacável predador sexual repleto de fantasias eróticas bizarras e com uma fixação obsessiva com jovens louras e atraentes. De tal forma que, a dada altura, Hitchcock força um beijo na boca de Tippi Hedren, diz-lhe que a ama e faz chantagem emocional com ela durante as filmagens de "The Birds". Aliás, "The Girl" demonstra o estado de crueldade a que Hitchcock chegava para humilhar a actriz no estúdio, sujeitando-a a difíceis filmagens com pássaros reais que a atacavam fisicamente durante vários dias seguidos. 
Apesar deste telefilme ter tido globalmente críticas positivas, a verdade é que não se livrou de controvérsia, uma vez que muitas vozes se levantaram a defender a imagem pública de Alfred Hitchcock, negando este retrato negro e retorcido do realizador (que não corresponderá à realidade plena dos factos).
Polémicas de lado, a verdade é que vale a pena visionar "The Girl", não só porque nos mostra uma faceta aparentemente menos nobre de Hitchcock (em contraponto com um Hitchcock muito menos sombrio que Hopkins interpretou), como dá a conhecer a figura algo misteriosa e ambígua da actriz Tippi Hedren.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Reservoir Dog

Se um dia Tarantino filmar um "Reservoir Dogs 2", estarei pronto para fazer o casting.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Jazz rock

Amon Tobin (enquanto projecto Cujo) a fazer jazz rock? Talvez sim. Ou não. Isto porque Amon Tobin faz de tudo e sempre bem. Mas a verdade é que se trata de alguém que pegou na música "Traffic" do álbum "Adventures in Foam" (1996) e a colou a um videoclip saído de um clube de jazz dos anos 40.
O contraste entre as imagens rústicas e a sofisticação da música é desconcertante, e a sincronia entre os instrumentos que supostamente "tocam" o que ouvimos bem divertida.
 Uma outra forma de ouvir e "ver" a música de Tobin.

A história de um álbum mítico

"The Story of Wish You Were Here" é um documentário realizado por John Edginton para a televisão britânica (BBC Four) e que estreou em DVD e Blu-Ray no Verão de 2012.
Trata-se de um documentário que revela, em apenas 59 minutos, os bastidores da criação do álbum com o mesmo nome (lançado em 1975), um dos mais aclamados dos Pink Floyd e de toda a música popular da segunda metade do século XX.
Revela como foram as sessões de gravação (no mítico estúdio Abbey Road), como os músicos criaram as músicas e a decisão de dividir a clássica música "Crazy Diamond" em duas partes.
Além disso, o realizador John Edginton entrevistou os três membros remanescentes - Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason - e incluiu imagens dos falecidos Richard Wright e do mítico Syd Barret.
Sem dúvida um documentário de visionamento obrigatório para todos os fãs dos Pink Floyd, uma das bandas mais influentes da história da cultura pop. 
O documentário pode ser visto - integralmente em inglês - neste link.

sábado, 11 de maio de 2013

O que diz Tarkovski #2

"Na minha infância, a minha mãe sugeriu que lesse o livro 'Guerra e Paz' de Tolstoi e, durante muitos anos, ela citou frequentemente o romance, chamando-me a atenção para a subtileza e as particularidades da prosa do escritor russo. Desse modo, 'Guerra e Paz' tornou-se para mim uma espécie de escola de arte, um critério de gosto e profundidade artística; depois desse livro, nunca mais consegui ler porcarias, que sempre me causaram profundo desagrado."

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O blues de Hugh Laurie




Hugh Laurie ficou mundialmente conhecido por interpretar o Dr. House na série de sucesso com o mesmo nome. Porém, Hugh Laurie não é apenas um carismático actor, é também um talentoso músico de blues. Há dois anos editou um promissor álbum de estreia intitulado "Let Them Talk". 
Agora acaba de lançar o segundo disco de nome "Didn't It Rain". É um disco de homenagem ao blues de Nova Orleães, com referências directas a alguns mestres deste género musical (entre temas originais e versões de "standards"). 
Já tive a oportunidade de ouvir o álbum na íntegra (pode ser ouvido aqui) e confirma-se o brilhantismo do actor-agora-músico: Hugh Laurie tem uma voz que encarna o verdadeiro espírito do blues, toca exemplarmente bem guitarra e piano e faz-se rodear de músicos de primeira categoria. E tem canções irresistíveis de expressivo feeling blues.
Como aperitivo, eis um videoclip quase em registo de curta-metragem:

quarta-feira, 8 de maio de 2013

No mundo do cinema



Certo dia Federico Fellini proferiu esta afirmação: "Cinema-verdade? Prefiro muito mais o cinema-mentira. É que a mentira é sempre mais interessante do que a verdade." 

Não só corroboro esta afirmação como digo mais - no cinema:

- O mal é sempre mais interessante do que o bem;
- A guerra é sempre mais interessante do que a paz;
- A sensualidade insinuante é sempre mais interessante do que o explícito;
- A violência é sempre mais interessante do que pacatez;
- O sonho é sempre mais interessante do que a realidade;
- O pesadelo perturbador é sempre mais interessante do que o sonho idílico;
- A corrupção é sempre mais interessante do que a honestidade;
- O medo é sempre mais interessante do que a coragem;
- O amor é sempre mais interessante do que a morte;
- O terror é sempre mais interessante do que a comédia;
- A melancolia é sempre mais interessante do que a felicidade;
- A pobreza é sempre mais interessante do que a riqueza;
- O silêncio é sempre mais interessante do que o ruído;
- A tragédia é sempre mais interessante do que a alegria;
- A traição é sempre mais interessante do que a lealdade;
- A vingança é sempre mais interessante do que resignação.
----------

terça-feira, 7 de maio de 2013

A morte de Ray

Hoje morreu, aos 92 anos, um dos grandes mestres - ainda que pouco conhecido das massas - do cinema mundial: Ray Harryhausen
O chamado pai dos efeitos especiais e artista maior da animação "stop-motion" (que tanto influenciou Tim Burton), Harryhausen foi responsável por uma autêntica revolução na arte dos efeitos especiais, dando vida a esqueletos guerreiros, serpentes gigantes ou monstros imaginários em filmes dos anos 40 a 70.
Quando estive em Londres no verão passado, visitei o magnífico London Film Museum no qual estava patente uma grande ala dedicada à obra de Ray Harryhausen (que o próprio inaugurou - ver aqui). 
Nessa exposição, intitulada "Myths & Legends",  pude ver maquetas utilizadas por Harryhausen em filmes de ficção científica, fotografias de rodagem, modelos de bonecos, storyboards, técnicas de animação, etc. 
Estas são as fotografias que tirei nessa exposição temporária do museu:

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Scorsese e o storyboard

Martin Scorsese atribui muita importância ao storyboard (desenhos que antecipam as cenas captadas pela câmara), ao contrário de outros realizadores, como Werber Herzog, que rejeita simplesmente a ideia de o utilizar.
É o próprio cineasta norte-americano que explica que o storyboard expressa a forma como ele pretende comunicar. Para compreender a importância que esta técnica tem para Scorsese, basta visualizar esta sequência do filme "Taxi Driver", em que podemos comprovar que a realização seguiu, praticamente à risca, os desenhos do storyboard:

Não pensar, não existir, só assistir




Hoje fui surpreendido por um graffiti numa parede da minha cidade. É um graffiti tão simples mas inteligente e que transmite uma imensa verdade: hoje a televisão é sobretudo um veículo comunicacional que potencia o embrutecimento da população (já o referi várias vezes neste blogue, aliás). À frente do televisor o indivíduo deixa de ter "existência" própria e age consoante a ditadura da informação e do entretenimento que são veiculados pela "caixa mágica". Isto é, através de uma lavagem cerebral mais ou menos oculta, deixa de "pensar" e assume um papel totalmente submisso e passivo ("só assisto"). E quando falo em pensar, falo em pensar de forma crítica e racional. 
A televisão é um instrumento que estupidifica, que se submete ao controlo dos grandes grupos económicos e se rege unicamente pela ditadura das audiências, produzindo cada vez mais lixo, cada vez mais conteúdos fúteis e supérfluos. Ver televisão é cada vez mais uma actividade boçal e de total perda de tempo. 
Isto leva-me a pensar no magnífico - e premonitório - filme "Eles Vivem" (1988) de John Carpenter. Filme em que todos os meios de comunicação social eram dominados por extraterrestres que mantinham a aparência de um mundo real quando, na realidade, o que existia era um conjunto de ordens subliminares para a população "obedecer", "não protestar", "consumir", "ver televisão", "não pensar", "dormir"... A verdadeira realidade, tenebrosa e refém de interesses iníquos, só podia ser contemplada com uns óculos especiais...
Voltando ao graffiti e contrariando a sua mensagem: devemos cada vez mais "pensar" (criticamente e pelas nossas próprias cabeças), cada vez mais "existir" (em conformidade com os tempos actuais) e cada vez menos "assistir" (passivamente, sem reacção).

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Elogio de Tarkovski

O realizador experimental Stan Brakhage elogiou um dia o cineasta russo Andrei Tarkovski pelos seus filmes a três níveis:

1) Por contar as lendas épicas das "tribos do mundo". 
2) Manter a sua obra pessoal, alcançando a verdade por esse caminho. 
3) Fazer um trabalho de sonho que ilumina as fronteiras do inconsciente.

Quando disse isto, Stan Brahkage tinha em mente o filme "O Espelho" (na imagem), que considerava um exemplo impressionante e dominador desta tripla premissa. Para Brakhage, esta obra de Tarkovski era, ao mesmo tempo, textura e aura, sensibilidade e confissão íntima, chamamento histórico e poema críptico.
 E não é preciso dizer mais nada...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lars e o poster

Poster do novo filme de Lars Von Trier: minimalista e enigmático, como de resto é apanágio do seu cinema.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O prazer (ou não) de rever filmes


João Bénard da Costa, saudoso ex-director da Cinemateca Nacional, disse um dia que o filme que mais “amava” e que mais vezes tinha visto na vida era “Johnny Guitar” (1954) de Nicholas Ray. Bénard da Costa viu este western 60 vezes (!). Sessenta visionamentos de mesmo filme, ao longo de uma vida. Pode parecer um exagero, mas o ex-director da Cinemateca defendia que, a cada novo visionamento, descobria pormenores novos.
Mais: conforme a idade com que via o filme, a disposição mental ou as circunstâncias mais diversas, “Johnny Guitar” parecia-lhe sempre um filme “novo”. Também lhe dava especial prazer - à força de tanto ver o filme – saber os diálogos de cor e citá-los à mesa do café com os amigos.
Não tenho a certeza, mas creio que o filme que já vi mais vezes foi o “The Shining” do Kubrick (ou o “Psico” do Hitchcock). Vi-o umas 7 ou 8 vezes. E na verdade nunca me cansei nem julgo que me cansarei a cada novo visionamento. Já outros filmes não resistem a um segundo visionamento, quanto mais ao quinto ou ao décimo quarto.
Há quem tenha reservas em rever um filme porque “já foi visto”. Mas tenho para mim que um bom filme deve e pode rever-se sempre quando necessitemos de o rever (com a disposição mental da primeira vez, sem reservas ou preconceitos), da mesma forma como se deve reler um bom livro dezenas de vezes ou ouvir uma música que já ouvimos centenas de vezes. A experiência é sempre diferente. Nem que seja um pouquinho diferente. O prazer estético que se retira desta fruição repetitiva é sempre positivo e enriquecedor, e não ofusca ou prejudica o prazer de descobrir objectos artísticos novos. Um prazer complementa o outro.
Já agora, como só vi o “Johnny Guitar” uma vez, vou aproveitar para vê-lo outra vez. Se gostar da experiência, talvez consiga igualar (ou superar) o record de visionamento de João Bénard da Costa.