quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O vazio da relação

É sabido que Woody Allen sempre foi um realizador extremamente atento à realidade da sociedade em geral e do relacionamento a dois, em particular. Aliás, grande parte da sua filmografia é dedicada a escalpelizar a complexidade de um relacionamento entre duas pessoas.
Em "Annie Hall" (1977), Allen demonstra, numa cena simples, a vacuidade das relações amorosas na sociedade moderna, tal e como se comprova nos diálogos:

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Filmes visionários

Um dos melhores sites dedicados ao "outro" cinema que está nos antípodas do cinema de Hollywood: cinema experimental e vanguardista de todas as épocas históricas do cinema. É espanhol, chama-se, com toda a propriedade, "Visionary Film", e contém muita informação (biografias, trailers, livros, artigos, entrevistas, DVD, etc) para os amantes das vanguardas estéticas de todas as formas do audiovisual, multimédia e vide-arte.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Óscares: breve resenha



Noite dos Óscares. A 85ª edição.
Assisti em directo, como é habitual. Não que esperasse grandes novidades ou surpresas (na distribuição das estatuetas ou no espectáculo), mas simplesmente porque já é um hábito meu antigo. E afinal de contas, apesar de todos os defeitos e injustiças (como demonstra o meu post anterior), os Óscares ainda encerram alguma mística na celebração do cinema.

Assim, para não ser muito exaustivo, eis algumas ideias dispersas que julgo importante realçar:

- O apresentador Seth MacFarlane conseguiu convencer. Um ritmo imparável de piadas politicamente incorrectas e provocatórias, bom sentido de auto-crítica, um bom  entertainer e cantor (com o momento alto da música "We Saw Your Boobs"). O surgimento do Capitão Kirk foi um achado humorístico.

- O tema da cerimónia era a música de filmes e a homenagem aos 50 anos de 007. Pois bem, nem todos os momentos resultaram. O musical "Chicago" regressou ao fim de 10 anos com o clássico "All That Jazz", com uma Catherine Xeta-Jones algo mais gorda mas não menos fogosa. A Adele ganhou o Óscar para melhor canção com "Skyfall" mas a prestação esteve longe de entusiasmar. Shirley Bassey foi mais assertiva, aos 75 anos, a cantar "Goldfinger". 

- O discurso de Christopher Waltz, emocionado, a agradecer a Tarantino citando passagens da sua personagem de "Django Libertado".

- O Óscar para Melhor Argumento Original para Quentin Tarantino, igual a si próprio, imagem irreverente (gravata torta) e língua sempre afiada.

- O Óscar bem entregue à melhor curta-metragem de animação, "The Paperman", ainda que pudesse ganhar o sempre genial PES.

- A classe, sedução e beleza de Charlize Theron a dançar exuberantemente num número musical.

- A curiosidade da selecção musical da orquestra para mandar parar (ou interromper) o discurso dos vencedores: a música de "Jaws" para os homens e "O Padrinho" para as mulheres.

- O erro lamentável e incompreensível (vem em baixo) nas imagens dos nomeados para Melhor Realizador: em vez da imagem de David O. Russel, a imagem de... Emmanuelle Riva!

- O Óscar de Melhor Banda Sonora para "A Vida de Pi", quando julgo que o trabalho do compositor Alexandre Desplat em "Argo" merecia muito mais o galardão.

- O facto inédito da Primeira Dama dos EUA, Michelle Obama, anunciar a partir da Casa Branca, o vencedor na categoria de Melhor Filme. 

- A injustiça do Óscar de Jennifer Lawrence em detrimento da veterana Emmanuelle Riva.

- O Óscar duvidoso de Melhor Fotografia para "A Vida de Pi", quando se sabe que 80% ou 90% das imagens deste filme são criadas com recurso a efeitos digitais.

- A mais do que previsível vitória de Daniel Day-Lewis (Melhor Actor) e de "Amour" (Melhor Filme Estrangeiro).

- A atitude estranha e errática de Kirsten Stewart: chegou à cerimónia de muletas e na apresentação de um Óscar parecia estar sob o efeito de alguma substância proibida.

- Belo discurso de agradecimento de Daniel Day-Lewis.

- O momento de lembrar os artistas falecidos do cinema: não se esqueceram de duas figuras pouco conhecidas mas essenciais: Chris Marker e Tonino Guerra. Só faltou a citação dos realizadores portugueses Fernando Lopes e Paulo Rocha (mas já era pedir demasiado).

- (...)


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Os injustiçados

Enquanto não se conhecem os vencedores da 85ª Cerimónia dos Óscares, eis algumas curiosidades que geraram grandes injustiças:

- Charlie Chaplin ganhou um Óscar honorário em 1929, na primeira edição dos Óscares. Recebeu um outro Óscar Honorário em 1972 e em 1973 ganhou o seu único Óscar em competição pela banda sonora de "Limelight", um filme originalmente realizado em 1952. 

- Alfred Hitchcock recebeu o seu Óscar Honorário em 1968 e nunca ganhou em regime de competição apesar de ter sido nomeado cinco vezes como melhor realizador e de ter recebido 50 nomeações no total. 

- Henry Fonda foi nomeado duas vezes pelos grandes filmes clássicos "The Grapes of Wrath" e "12 Angry Men" mas não ganhou. Para compensar, recebeu em 1981 o habitual Óscar Honorário. 

- Stanley Kubrick, nomeado inúmeras vezes, apenas ganhou uma vez pelos efeitos especiais de "2001: Odisseia no Espaço". 

- Steven Spielberg foi nomeado para os filmes de grande espectáculo "Encontros Imediatos do 3º Grau", "Indiana Jones e a Arca Perdida" e ET - O Extraterreste" mas não ganhou qualquer Óscar por estes filmes. Apenas viria a ganhar com os seus filmes ditos "sérios": "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan".

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Esplendorosa Emmanuelle Riva

O nome da actriz Emmanuelle Riva há-de ficar nos anais da história do cinema com uma característica muito especial: o de ser lembrada para sempre com dois filmes que iniciaram e terminaram a sua carreira: "Hiroshima Meu Amor" (1959) de Alain Resnais e "Amor" (2012) de Michael Haneke
53 anos separam estes dois filmes, dois filmes que têm a palavra "amor" no título, dois filmes que abordam questões essenciais sobre a ascensão e o declínio do amor. É como se Emmanuelle Riva não tivesse feito mais filmes no intervalo destas duas películas. Fez, alguns até importantes. Mas serão "Hiroshima Meu Amor" e "Amor" os títulos que ficarão para sempre na memória de qualquer cinéfilo. 
No filme de Alain Resnais, Riva tinha 32 anos, surgia no auge da sua esplendorosa sensualidade física; no filme de Haneke, a actriz apresentou-se com respeitáveis 85 anos de idade (no próprio dia da cerimónia dos Óscares fará 86 anos). Mas é como se a mesma sensualidade, carisma e intensidade não se tivessem esfumado por um único segundo com todos estes anos passados. Não importa que Riva possa não ganhar o Óscar de melhor actriz. O seu legado é maior do que qualquer estatueta dourada.

O primeiro disco

O primeiro disco de vinil que comprei (via postal, em 1986): "Violent Femmes" (1983) - Violent Femmes
O álbum na íntegra:

Notas de Bresson #28

"Quando um violino é suficiente, não se deve utilizar dois."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

"O Mentor"

"O Mentor" de Paul Thomas Anderson: grande expectativa, semi-desilusão.
O filme é todo ele carregado às costas por dois soberbos actores, Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix. E, claro, pela não menos soberba realização e mise-en-scène de Paul T. Anderson. Só que fiquei com a notória sensação de que a história e o ritmo com que é narrada são componentes menos conseguidos do filme.
O argumento emaranha-se em episódios arrastados e até inconsequentes e parece que nunca consegue arrancar para a intensidade que se desejava como é habitual num filme de Anderson. Hoffman compõe um notável personagem, fanático e obsessivo. Phoenix é convincente na alma penada à procura de uma salvação terrena (só não ganha o Óscar de Melhor Actor porque existe um senhor chamado Daniel Day-Lewis). 
Porém, tudo gira demasiado à volta da relação destas duas figuras icónicas e pouco mais de substancial sobra para a memória futura do espectador.
Pelo que apetece perguntar directamente: Paul Thomas Anderson, onde está o grande fôlego e criatividade que revelaste quando fizeste "Magnólia" ou "Haverá Sangue"?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"All work and no play makes Jack a dull boy" #2


A história do The Pirate Bay



Peter Sunde, Fredrik Neij e Gottfrid Svartholm. Três jovens que marcaram a história da Internet ao criarem o famoso site de partilha de ficheiros The Pirate Bay. Durante alguns anos, este foi um dos sites mais utilizados para partilhar milhões de ficheiros (sobretudo áudio e vídeo) por utilizadores à escala global, sempre com a questão dos direitos de autor em causa (copyright). 
Há uns anos, as autoridades processaram os fundadores e deste facto surgiu este documentário "TPB AFK: The Pirate Bay Away from Keyboard".
Realizado por Simon Klose durante 4 anos, o documentário reflecte a vida dos fundadores e toda a complexidade legal sobre o conflito entre os defensores da Internet livre e os defensores arreigados do copyright. O filme teve estreia no dia 8 de Fevereiro no Festival de Berlim e, nesse mesmo dia, ficou disponível gratuitamente na Internet (fazendo jus ao espírito livre do The Pirate Bay). 
Inclusivamente, já tem legendas em português (como neste vídeo em baixo).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Almas silenciosas na Rússia

Há filmes assim: que surgem diante dos nossos olhos sem praticamente sabermos referências anteriores, como que vindos do nada. Surgem de rompante e deleito-me e espanto-me perante tamanha eloquência e beleza na simplicidade.
Neste caso, trata-se de um filme que nem sequer estreou comercialmente nas salas, vem de um país longínquo (Rússia) e de um realizador desconhecido (Alexei Fedorchenko). O filme tem o título poético "Silent Souls" e foi considerado um dos melhore filmes do festival de Veneza de 2010 (venceu o Grande Prémio do Júri do Festival).
Um homem pede ajuda a um amigo para uma cerimónia fúnebre da sua esposa morta segundo uma antiga tradição da cultura Meria, uma antiga tribo que vivia à beira do Mar Negro. Os dois homens, porém, não conseguem deixar que o sentimento de perda vença a batalha contra a tradição... 
O filme aborda a (in)capacidade de vencer a dor da morte e de vivenciar o luto em toda a sua plenitude. O realizador Alexei Fedorchenko constrói um mosaico de belas e silenciosas passagens emolduradas sob o frio tenebroso de uma Rússia em constante estado de mutação social. Memórias, passado e presente, vida e morte, solidão e amor, são alguns dos pilares desta obra.
Claramente imbuído da estética e sensibilidade russas, "Silent Souls" emerge como um belo manifesto sobre o sentido da vida à luz de uma cultura tão forte como a russa. Um filme cuja curta duração (75 minutos) é suficiente para transmitir sentimentos contraditórios e agridoces. Superiormente realizado e fotografado, com uma banda sonora belíssima, "Silent Souls" é um deleite visual que vive das mais profundas e genuínas emoções humanas.
Nota breve: Este filme teve em mim o mesmo impacto que outro belo filme russo: "O Regresso" (2003) de Andrei Zvyagintsev.
Trailer.

Os gostos de Barreto Xavier

É reconfortante conhecer os gostos culturais do Secretário de Estado da Cultura de Portugal.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Os primeiros papéis dos nomeados

O título deste vídeo diz tudo: as primeiras interpretações dos actores e actrizes nomeados aos Óscares deste ano. É uma espécie de compilação de "tesourinhos deprimentes" (pelo menos referentes a alguns actores). 
O vídeo pode ser visto aqui.

As memórias como um filme

Hoje ocorreu-me este pensamento retórico: "E se fosse possível relembrar acontecimentos passados das nossas vidas com a mesma nitidez de um filme?". 
Pormenorizando: "E se fosse possível, por qualquer mecanismo ainda por inventar, podermos ver num grande ecrã aqueles episódios especiais da nossa infância, aqueles momentos únicos que, por qualquer razão, nos marcaram para o resto da vida mas dos quais a nossa memória (porque é falível) só guarda alguns detalhes?"
Ou seja, imaginem carregar num botão e puderem ver - como num filme realizado em HD - as vivências de outrora mais marcantes das nossas vidas. 
Acho que esta minha fantasia seria uma boa premissa para um filme de ficção científica...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A música de Woody Allen num CD

Qualquer cinéfilo sabe quão importante é a música num filme de Woody Allen. E qualquer um sabe que o jazz e a música clássica são os géneros preferidos do cineasta de Nova Iorque. 
Na secção de bandas sonoras da Fnac encontrei este CD com as melhores músicas dos filmes de Woody Allen por um preço muito simpático: "Woody Allen: Best Music of His Movies".

"All work and no play makes Jack a dull boy"


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dia Mundial da Rádio


Há uns anos, o saudoso radialista António Sérgio respondia assim à pergunta da revista BLITZ - "Quais foram para si os anos áureos da rádio em Portugal?"
António Sérgio - "Os anos dos programas de autor na antiga Rádio Comercial, ainda pertencente à RDP. A rádio era ouvida com uma clubite muito especial. Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos - as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música."
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É disto que se trata. A rádio portuguesa já não incentiva ninguém a comprar música, a motivar a paixão pela música. Nas palavras de António Sérgio: já não "incendia o imaginário dos ouvintes".
A rádio precisa de um abanão. Precisa de renovar a sua função como meio de comunicação, dado que a internet lhe roubou o protagonismo. Já não se sente o mesmo prazer a ouvir rádio como há 10 ou 15 anos atrás, com programas de autor como os de António Sérgio, Aníbal Cabrita, Rui Morrison, ou Luís Filipe Barros e dos programas da XFM.
A rádio deve livrar-se das convenções, da pressão dos critérios economicistas e da ditadura das audiências/playlists. A formatação generalizada da rádio portuguesa é deprimente. A letargia criativa e a falta de conhecimentos dos radialistas são notórias. Depois do despedimento do último grande radialista nacional e responsável por alguns dos melhores programas de rádio de autor - António Sérgio, não resta quase ninguém. Sobram algumas rádios universitárias, com tendência independente e de forte marca autoral (RUC e RUM).
Em Espanha, o panorama das rádios nacionais é totalmente diferente. Para (muito) melhor. Primeiro, a percentagem de música espanhola que passa nas rádios é significativamente maior do que a de origem anglo-saxónica; segundo, há tanto espaço para divulgar os músicos consagrados como as bandas em início de carreira, com um notável empenho e interesse por parte das rádios. Os programas de rádios espanhóis de autor não se limitam a passar música para preencher o éter hertziano. São criteriosos, informados, esclarecidos, actualizados, cultos, com conhecimentos de música.
Ou seja, atributos que não fazem parte da maior parte dos animadores de rádio nacionais (salvo honrosas excepções, todas da Antena 2 e 3). É claro que os espanhóis têm dois defeitos que os portugueses se orgulham de não ter: têm péssima pronúncia inglesa e falam frequentemente no meio das músicas (mas estes dois pormenores são menores comparados com as características positivas acima referidas).
A Radio 3 espanhola, emissora nacional de serviço público, tem programas de grande qualidade, num horário consecutivo - de manhã à noite. Podemos ouvir, em horário nobre, world music, jazz, rock experimental, clássica, electrónica, flamenco, debates sobre livros, cinema e arte, etc.
Com o estado actual das rádios portuguesas apetece trazer de novo as rádios piratas dos anos 80!

Dois filmes sérvios

São dois filmes que não tiveram, até à data, estreia comercial nos cinemas nacionais. E talvez nunca venham a ter. O que os une é o facto de ambos serem filmes de origem sérvia, realizados em 2012, e de terem gerado muita controvérsia. Ao ponto de um deles, "A Serbian Film", ter sido banido oficialmente em vários países. "Klip" é realizado pela jovem realizadora Maja Milos e conta a história de uma adolescente que vive num bairro pobre e que tem por obsessão filmar no telemóvel tudo (ou quase) o que lhe acontece. 
Klip



A jovem detesta a escola e adora festas com muito álcool, drogas e sexo. E é nesta avalanche de experiências complexas quase até ao abismo que "Klip" se desenrola. O filme tenta mostrar as angústias e as indefinições da identidade adolescente, submersa no prazer hedonista, na deriva de valores e na descoberta de novas sensações imediatas. Maja Milos filma estes devaneios com fervor e com a câmara quase colada à pele, os jovens encarnam com realismo as vivências turbulentas, mas a história tem pouca profundidade e perde-se num drama previsível. "Klip" tem algumas cenas de sexo explícito filmadas de forma subtil e sem procurar o choque gratuito.
"A Serbian Film" é outra história. Trata-se do primeiro filme do sérvio Srdan Spasojevic e trata-se de uma abordagem ao terror sexual gore: um ex-actor pornográfico é contratado para a voltar ao cinema para entrar num "art film". Mas depressa percebe que foi forçado a entrar num terrível "snuff movie" com os ingredientes mais dantescos: violência sexual extrema, necrofilia, pedofilia...
"A Serbian Film" só podia provocar opiniões extremadas: por um lado, foi banido em vários países devido à violência explícita (Espanha, Brasil, Noruega, Nova Zelândia, Austrália...); por outro lado, ganhou vários prémios em festivais especialziados de terror, como num festival do Canadá e no conhecido Fantasporto (Prémio do Júri). O realizador tem defendido o seu primeiro filme referindo que se trata de uma paródia e de uma crítica aos filmes sérvios que não inovam e são dependentes de subsídios estrangeiros. Fraca desculpa, digo eu...
A Serbian Film


Quanto ao filme propriamente dito, "A Serbian Film", por causa de toda a polémica em volta, é uma obra que poderá chocar susceptibilidades devido ao seu carácter violento e à temática tabu que explora (a "arte da abominação", descreveu um crítico). No entanto, não é nada que outros filmes do género já exploraram (com melhores resultados). A história é claramente inverosímil, as interpretações são quase mecânicas, percebe-se a intenção do realizador de chocar por chocar. A moral que perpassa o filme é insidiosa e repugnante e, quanto a mim, foi esse facto que mais me chocou (porque a violência gráfica do filme não me perturbou - imaginem a violência de um "Hostel" ou "Saw" mas com forte componente sexual).
Mal por mal, "Klip" ainda demonstra alguma honestidade pela forma como tenta mostrar uma realidade comum à juventude rebelde de hoje sem entrar em pormenores grotescos e ingenuamente provocadores...      
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Trailer de "Klip"
Trailer de "A Serbian Film"

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A formação de Bigelow


Kathryn Bigelow revelou há algum tempo ao The New York Times que as suas grandes influências no seu estilo cinematográfico são realizadores como Sam Peckinpah e Pasolini, mas também artistas plásticos como Goya, Serra ou De Kooning.
Na verdade, misturar a violência do cinema do outsider Sam Peckinpah com a provocação estética de Pasolini, ou a pintura realista de Goya com o Expressionismo Abstracto de De Kooning, não lembra ao diabo. Mas talvez sejam estas fusões artísticas aparentemente improváveis que fazem do cinema de Bigelow uma progressiva força de expressão visual.
Para explicar estas opções, convém dizer que a realizadora de "Zero Dark Thirty" teve uma sólida formação artística, com um passado ligado às artes plásticas e aos movimentos de vanguarda.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Playtime #83

A solução: "The Hours" (2002) - Stephen Daldry
 Quem descobriu: Joana A. e Rafael Santos

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O policial mais curto de sempre

Hoje em dia, fruto da democratização e da facilidade de acesso dos instrumentos tecnológicos-digitais de criação de imagens, torna-se muito expedita a ideia de que qualquer um pode ser "realizador". É o caso de The Theory, nome artístico de um jovem que conseguiu a proeza de fazer uma curta-metragem em registo policial no seu próprio quarto, recorrendo a um projector de bolso e imagens computorizadas que são projectadas nas superfícies de móveis, objectos, paredes e chão).
Deu-lhe o título (nada inocente) de "Speed Of Light - The World's Most Smallest Chase" e é uma delícia.
Para ver este "filme", abrir aqui.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O mito de "Jaws"


Vi um documentário sobre os 35 anos de "Jaws" (1975) no canal por cabo Biography, segundo filme de Steven Spielberg (depois da brilhante estreia com "Duel - Um Assassino Pelas Costas" de 1971). Já sabia que "Tubarão" fora um marco na indústria cinematográfica de Hollywood, inaugurando o chamado "blockbuster de verão". 
Das ideias que fui recolhendo ao longo do referido documentário, eis as mais interessantes e curiosas:

- Steven Spielberg refere que "Jaws" representou a sua melhor e pior experiência de sempre no cinema.
- O processo de filmagem foi extremamente lento e difícil devido às condições marítimas e aos problemas mecânicos do tubarão.
- Foi largamente ultrapassado o tempo limite para a conclusão do filme e o orçamento previsto.
- Spielberg vivia todos os dias com o pressentimento aterrador de que o estúdio (Universal) rompesse com o contrato e o realizador nunca mais pudesse fazer filmes.
- Houve um clima hostil entre os actores Richard Dreyfuss e Robert Shaw (este morreria três anos após o filme, vítima de ataque cardíaco).
- Charlton Heston e Lee Marvin foram considerados para os papéis protagonistas, mas acabaram por não o ser.
- Spielberg baptizou o tubarão de "Bruce".
- Os principais responsáveis pelo filme (realizador e produtores) viveram momentos de grande ansiedade aquando da estreia porque desconheciam se iria ou não ser bem recebido pelo público.
- "Jaws" superou largamente todas as expectativas de bilheteira, ficando um ano inteiro em cartaz (67 milhões de espectadores só nos EUA), transformando-se numa das estreias mais rentáveis de sempre.
- O compositor John Williams explica que as duas ou três notas principais da sua banda sonora foram suficientes para criar uma sensação progressiva de suspense e medo. A primeira vez que Spielberg ouviu essa sequência musical minimalista reagiu a rir: "Ahah, John, está engraçado, mas mostra-me lá o que realmente compuseste para o tema principal do filme". Mais tarde, o realizador diria que sem a música de Williams, o filme nunca teria o impacto que teve.
- Spielberg, depois da experiência quase traumática das filmagens em alto mar, confessou que o seu próximo filme seria em terra bem firme e que nem filmaria cenas em banheiras (com água). Foi parcialmente verdade: o cineasta filmou a seguir o filme de ficção científica "Encontros Imediatos de 3º Grau", passava-se em terra firme mas teve duas cenas na casa de banho.
- Segundo os produtores de "Jaws", devido ao enorme sucesso do filme, aumentou em muito o número de biólogos marinhos nos EUA.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A primeira imagem

Foi divulgada hoje a primeira imagem do novo filme de Lars Von Trier, "Nymphomaniac".

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Susto ao espelho

É um cliché dos filmes de terror (ou thrillers) de Hollywood (e não só): alguém olha para um espelho ou um vidro e vê (ou pensa que vê) um vulto ameaçador, provocando um susto mais ou menos intenso no espectador. Este recurso para gerar medo e ansiedade foi utilizado por dezenas de realizadores (dos consagrados aos debutantes) em dezenas de filmes (dos bons aos maus filmes). Por vezes, o efeito do susto recorrendo ao espelho e seus súbitos reflexos resulta muito bem (depende como a cena está filmada e quais os actores envolvidos), outras vezes torna-se numa cena perfeitamente previsível e redundante. 
Eis uma interessante compilação desses momentos tão peculiares do cinema nos quais o espelho é "rei":

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Óscares e o realismo



Este ano a lista de nomeados dos Óscares tem uma particularidade rara que, julgo, estará a passar despercebida a muitos cinéfilos: refiro-me ao facto de haver oito filmes nomeados (em diversas categorias) cujas histórias são baseadas em factos verídicos. Analisei a lista de todas as nomeações e creio que não estarei a cometer nenhum erro (só não tenho a certeza em relação às curtas-metragens).
Não me recordo de ter havido, em anos anteriores, tantos filmes nomeados com base em histórias reais. Significará isto que a indústria do cinema (sobretudo a de Hollywood) procura inspiração nos chamados casos da vida real? Será uma tendência a manter ou terá sido mera coincidência? Aguardemos, portanto... 

Eis a lista:

- "Lincoln"
- "00h30: A Hora Negra"
- "Argo"
- "Flight - Decisão de Risco"
- "O Impossível"
- "The Sessions"
- "Rebelle"
- "Hitchcock"

PS - Entretanto, vai surgir nova vaga de biopics. Estão já confirmados filmes sobre figuras reais: Julianne Moore vai ser Sarah Palin (na imagem em baixo); Ashton Kutcher vai ser Steve Jobs; Al Pacino vai fazer o papel do músico Phil Spector; James Franco encarnará o dono da Playboy Hugh Hefner e Tom Hanks será o capitão Phillips. 

The face of horror

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Isto. É. Grande. Arte.

"Isam" de Amon Tobin continua a deslumbrar. Concebido para ser uma arrebatadora experiência visual e sonora, "Isam" é um espectáculo "futurista", um novo e apoteótico conceito de espectáculo ao vivo. Música electrónica acutilante e imagens em "video mapping" de tirar o fôlego. Em Março Amon Tobin e "Isam" apresentam-se ao vivo em Londres e Paris. Infelizmente, Portugal e Espanha ainda não constam no mapa desta digressão...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

10 minutos de filme

O jovem realizador espanhol Juan Antonio Bayona já nos tinha oferecido um bom filme de terror com "O Orfanato" (2007). Com "O Impossível" mudou de registo e apostou num drama baseado em factos reais aquando do tsunami asiático de 2004.
Naomi Watts está nomeada ao Óscar de melhor actriz pelo seu papel de mãe coragem perante a adversidade. A sua interpretação cumpre, mas não achei que tivesse sido assim tão extraordinária. E quanto ao filme propriamente dito, faço minhas as palavras do crítico de cinema Pedro Marta Santos (revista Sábado), quando escreveu o seguinte: "Os 10 minutos em que Maria (Watts) e o filho Lucas lutam, desesperados, com a fúria das águas, as árvores quebradas, os automóveis à deriva, a lama e os detritos são do mais intenso, e mais espectacular, que o cinema nos ofereceu no último ano. O problema são os restantes 85 minutos, onde se dá lugar ao melodrama lacrimoso".