terça-feira, 30 de setembro de 2008

Glass on Disney

A isto chamo uma boa notícia: Philip Glass vai compor uma ópera sobre Walt Disney. O prolífero compositor americano de 70 anos vai trabalhar sobre um dos maiores ícones da cultura popular da primeira metade do século XX. Mas os fãs de Glass e Disney vão ter de esperar para ver e ouvir o resultado desta encomenda da Ópera de Nova Iorque, uma vez que a estreia só está marcada para a temporada de 20012/13.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

The Godfather Family Album


Motivado pela entrevista do jornalista João Lisboa (Expresso último) ao autor Joaquim Paulo sobre o seu trabalho na compilação das melhores capas de discos jazz para a Taschen, fui investigar o site da editora e deparei-me com uma verdadeira preciosidade: a edição especialíssima de um álbum de fotografias sobre a trilogia da saga "O Padrinho" de Francis Ford Coppola, intitulado "The Godfather Family Album".
São mais de 400 páginas luxuosamente encadernadas com fotografias de Steve Schapiro, um dos grandes fotógrafos das últimas três décadas: fotografou grandes personalidades do século XX: Muhammad Ali, Robert Kennedy, Andy Warhol, Martin Luther King Jr., Samuel Beckett, Ray Charles, Jackie Kennedy Onassis, Barbra Streisand, James Baldwin e Truman Capote. Schapiro trabalhou ainda para as principais revistas americanas: Life, Look, Time, Newsweek, SI, Rolling Stone ou People.
Steve Schapiro fotografou mais de duzentos sets de filmes, entre os quais, os eternos clássicos: "The Godfather", "Midnight Cowboy", "Taxi Driver", e "Chinatown". Esta edição especial está limitada a 100 exemplares assinados pelo fotógrafo e revela fotografias inéditas dos bastidores das filmagens dos três filmes. O problema é o preço. Esta edição custa uns pouco módicos 1250€. Sabe-se que a Tachen pratica preços elevados quando se tratam de edições especiais (300€ ou 500€), mas agora 1250€... Mas mesmo este preço não se compara com o valor que é preciso desembolsar para comprar uma edição do livro com trabalhos do artista Christopher Wool: 3000€! Já mandei reservar para oferecer como prenda no Natal.

A salvação pelo Dr. Sibiá

DR. SIBIÁ
"Espiritualista e Cientista, dotado de conhecimentos e poderes, ajuda a resolver problemas em menos de 15 dias, difíceis ou graves, com garantia, tais como: Grandes problemas financeiros, Créditos mal parados, Jogos, Ascenção profissional, Amor, Insucessos, Depressão e Negócios, Justiça, Impotência sexual, Amarração da mulher em 7 dias e do homem em 8 dias, Maus olhados, Invejas, Doenças espirituais, Vícios de drogas, Tabaco e Alcoolismo, Aproxima e Afasta pessoas amadas com rapidez total. Lê a sorte e dá previsão da vida e futuro. Se quer prender a si uma Vida nova, com segurança e pôr fim a tudo o que o preocupa: CONTACTE DR. SIBIÁ. Atendimento das 08h às 22h"
Transcrição fiel e integral do folheto recebido na caixa de correio.

domingo, 28 de setembro de 2008

Díptico - 32


"Love" (mão direita) e "Hate" (mão esquerda) - Robert Mitchum no filme "A Noite do Caçador" (1955) de Charles Laughton.
Díptico eterno: a história do Bem e do Mal

Por que se suicida um escritor?


Já escrevi uma vez sobre artistas (poetas, escritores) que se suicidaram. Porque, como Albert Camus um dia asseverou, só há uma pergunta à qual a filosofia deve tentar responder: a raiz do suicídio - saber se a vida merece ou não ser vivida.
A propósito do suicídio, no passado dia 12 de Setembro, do escritor americano David Foster Wallace, o jornal espanhol El País publicou um excelente artigo no qual se aborda o suicídio de escritores ao longo da história e se tenta explicar (se é que há explicação possível) para o mistério fundamental no mundo das artes: por que se matam os escritores?. Aqui.

Vivemos uma felicidade paradoxal


Em 1993 li um livro que produziu em mim uma nova visão sobre o mundo, um livro radical e ousado escrito por um filósofo francês que viria a ser um dos grandes críticos da sociedade de massa (não sem controvérsia, como convém): Gilles Lipovetsky. O livro chamava-se "A Era do Vazio - Ensaio Sobre o Individualismo Contemporâneo" (Relógio D'Água, 1989). O autor fazia uma crítica profunda dos paradigmas da sociedade contemporânea, analisando as relações sociais, a falência do modelo pós-moderno, a crise do liberalismo galopante, a crise da cultura de vanguarda, hoje assente em manifestações estereotipadas e inconsequentes. Eis a observação mais pertinente de Lipovestsky acerca do estado actual da arte: "A moda dos 'ismos' já passou. As manifestações estrondosas do início do século, as grandes provocações, deixaram de ser apreciadas hoje em dia. Perda de fôlego da vanguarda, tal não significa que a arte esteja morta, que os artistas já não tenham imaginação, mas que as obras mais interessantes se deslocaram, já não procuram inventar linguagens de ruptura. As experimentações continuam mas com resultados pobres, a arte conhece a sua fase depressiva. A situação pós-moderna da arte já não tem a ver com nenhum vector revolucionário, perdeu o seu estatuto pioneiro e desbravador, esgotou-se. O pós-modernismo não passa de um outro nome para designar a decadência moral e estética do nosso tempo."
Uns anos mais tarde, Lipovetsky lançaria outro livro arrasador sobre a sociedade contemporânea - "O Império do Efémero" - desta vez analisando o mundo da moda, da publicidade, das marcas de luxo e do entretenimento e de como estas componentes da vida social podem provocar a alienação do indivíduo. Há menos de um ano, O filósofo e ensaísta francês editou a sua mais recente e controversa obra: "A Felicidade Paradoxal - Ensaio Sobre a Sociedade do Hiperconsumo" (Edições 70), um olhar sobre a nossa civilização à luz de um novo estádio: o hiperconsumo. Lipovetsky defende que o consumidor moderno já não consome apenas objectos e bens, mas também cidadania, solidariedade, ética, ecologia que os media e as grandes instituições vendem ao cidadão comum. Todas as grandes instituições sociais são colonizadas pelo consumismo. Numa entrevista ao Público há um ano, Lipovetsky afirma: "O drama é que até os pobres são hiper-consumidores, não lhes basta comer, também aspiram à existência que vêem na publicidade e na televisão. O consumo tem uma função terapêutica, funciona como forma de esquecer os males da individualização: quando as mulheres estão deprimidas vãos às compras, é um lugar-comum. É uma pequena droga, equivalente à missa de antigamente. Existe hoje um consumo-mundo, justamente porque já não existe Deus. Hoje a própria religião entrou numa lógica de consumo. A sociedade democratizou o conforto e a qualidade de vida, mas o indivíduo, divorciado da política e do interesse colectivo, centra-se num total individualismo e na busca pelo prazer através do consumo."
Gilles Lipovetsky, apesar de não ter sido o primeiro pensador a reflectir sobre a sociedade de consumo, apresenta neste seu último livro uma visão extremamente actual e pertinente das relações do homem com os estímulos que o rodeiam, escalpelizando de forma crítica, os pequenos males que corroem os alicerces da nossa sociedade. Pequenos males que fomentam este estado de "felicidade paradoxal" em que vivemos.

sábado, 27 de setembro de 2008

Díptico - 31


"Cape Fear" (1962) - J. Lee Thompson e "Cape Fear" (1991) - Martin Scorsese

Ohi Ho Bang Bang!

O videoclip que está em baixo é um clássico absoluto que representou um marco na criação audiovisual contemporânea. Chama-se "Ohi Ho Bang Bang", foi filmado pelo video-artista Akiko Hada com música do alemão Holger Hiller. Estávamos em 1988 e eu lembro-me de ter gravado em VHS este vídeo num mítico programa de televisão espanhola (TVE2) dedicado às correntes artísticas de vanguarda - "Metropolis". Quando vi este vídeo pela primeira vez fiquei de queixo caído: pela originalidade, pela invenção musical e pela meticulosa montagem e sincronia entre imagem e som. Em 1988 ainda vinha longe a era da tecnologia digital, pelo que tudo foi filmado em sistema analógico, de forma extremamente minuciosa e paciente. A música foi feita com base nos sons gravados durante a própria filmagem (não são samples electrónicos!) e posteriormente trabalhados e misturados em estúdio. Sons que, diga-se, são trabalhados ao mais ínfimo pormenor, e cuja mestria rítmica é desconcertante. Ou seja, cada som que ouvimos vemos representada a respectiva fonte sonora. E o trabalho de manipulação sonora é verdadeiramente notável, para não falar no trabalho de montagem visual. Ritmos vocais, ruídos de scratch, feedbacks de guitarra, sons de objectos - tudo em espantosa harmonia conceptual.
Durante anos apresentei aos meus alunos (Educação Musical) a cassete com este videoclip, e o seu visionamento proporcionava sempre estupefacção na cabeça das crianças. Viam-no com espírito crítico, facto que estimulava o debate de opiniões acerca deste videoclip. Não era para menos. "Ohi Ho Bang Bang" foi um trabalho totalmente peioneiro na experimentação som-imagem, quer ao nível da criação musical (influenciou grande parte da produção musical electrónica dos anos 90), quer ao nível da realização de videoclips - os Coldcut têm dois videoclips que partem exactamente do mesmo conceito deste, mas já realizados com recurso à manipulação digital das imagens.
Passaram 20 anos desde a data em que foi feita, mas esta pequena obra-prima de Holger Hiller/Akiko Hada, mantém a mesma frescura, ousadia formal e originalidade - apesar da qualidade de imagem ser menos boa.

Neubauten ao peito



sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Conhece o filme "O Pentelho"?


O portal de informação diario.iol.pt revelou uma lista bizarra de títulos de filmes traduzidos para português. Não é novidade nenhuma que alguns títulos são perfeitas aberrações relativamente aos originais. Ou são levados demasiado à letra, ou são tão poéticos e levianos que fogem ao essencial da história do filme. Sempre me questionei quem serão os responsáveis desta tarefa (algo ingrata, admito) de traduzir títulos. Serão os mesmo que traduzem os diálogos dos filmes? Seja como for, alguns títulos de filmes entraram para o anedotário nacional pelo ridículo. Exemplos:

Título original »»» Título português
Balls of Fury - "Não me Toques nas Bolas"
Harold and Kumar go to the White Castle - "Grande Moca Meu"
White Man Can't Jump - "Branco não Sabe Meter"
See No Evil - "Coleccionador de Olhos"
Jersey Girl - "Era uma vez...um Pai"
Snatch - "Porcos e Diamantes"
Forgetting Sarah Marshall - "Um Belo Par... de Patins"
Sleepy Hollow - "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça"
Are we there yet? - "Estás Frito, Meu!"

Como se vê, alguns dos títulos são verdadeiros tratados de estupidez e só promovem a indiferença total perante o respectivo filme. Qual é o jovem que tem a coragem de convidar a namorada para ver o filme "Não me Toques Nas Bolas"? De qualquer modo, pode parecer incrível, mas os nossos irmãos brasileiros conseguem fazer melhor, muito melhor. O blogue Som Viciado analisou as traduções brasileiras de filmes americanos e não restam dúvidas. Os portugueses ao pé dos brasileiros são muito mais competentes do que julgamos. Ao constatar as traduções brasileiras de filmes americanos, ficamos a saber que o clássico dos musicais "Sound of Music" passou para "A Noviça Rebelde" (na imagem), Charlot é "Carlitos", o filme "The Cable Guy" com Jim Carrey tem a hilariante tradução de "O Pentelho", "Sozinho em Casa" tem interpretação brasileira "Esqueceram de Mim" ou o filme de Oliver Stone "JFK" tem o acrescento "JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar".
Agora gostava era de conhecer mais a fundo as traduções inglesas de filmes portugueses ou brasileiros...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Saudades de Jim Henson

O regresso da Premiere



É uma boa notícia para o mercado editorial português e para quem gosta de ler informação sobre cinema: após a sua inesperada extinção há um ano, a revista de cinema Premiere (a única em formato de papel em Portugal) está de volta ao mercado com novas ideias e a aposta em diferentes plataformas. Crítica de filmes, DVD, séries de televisão, bandas sonoras, secção de opinião, recensão de filmes clássicos, participação do leitor, e divulgação de livros sobre cinema e de jovens realizadores portugueses, serão alguns dos conteúdos abordados na revista. O director vai continuar a ser José Viera Mendes e a tiragem será de 20 mil exemplares. O primeiro número deste renascimento da Premiere será já neste mês de Outubro. Óptimo.

O ódio mortal à América

Há quem odeie profunde a América. E nem sempre são os terroristas islâmicos a demonstrá-lo. Há quem veja no "país das oportunidades" a escória da humanidade. Não só em termos políticos como sociais, culturais, o que se queira enumerar. Não sei já muito bem porquê, mas fui parar a um blogue que tem os canhões apontados aos EUA. Tem o singelo e pragmático nome de "58 Reasons to Hate America". O seu autor (ou autores) é desconhecido (como convém), mas as suas intenções são claras: deitar abaixo tudo o que mexa e exista de costa a costa dos Estados Unidos. Desde a política às próprias pessoas (gordas, atrasadas mentais, incultas), passando pelos hábitos sociais ou alimentares (grotescos), os filmes de Hollywood, os desportos violentos, até às cidades sujas e desorganizadas, tudo é cilindrado e criticado de forma extremamente severa e cáustica. No início ainda pensei que se tratava de uma brincadeira, de alguém simplesmente a gozar com o "american way of life". Mas não. A violência dos ataques e o nível de cinismo não deixam dúvidas. Quem escreve ali odeia de morte os EUA e só tem, propositadamente, uma visão parcial, hiperbólica e deturpada da realidade americana.
Não me chocaria se se descobrisse que o autor do blogue é um pacato cidadão... norte-americano que detesta o seu próprio país mas que não tem a coragem para o revelar publicamente. Provavelmente vai à igreja todos os domingos, dá esmola aos pobres, participa em acções de caridade, apoia o partido republicano, mas quando se agarra à noite no seu computador é para dizimar a imagem da América, qual extremista muçulmano (ou então é a minha veia conspirativa a vir ao de cima para explicar esta coisa abjecta).

Díptico - 30


"Fast Food Nation" (livro, 2001) de Eric Schlosser e "Super Size Me" (filme, 2004) de Morgan Spurlock

Mistura explosiva

Philip Glass meets Ruins? É o que parece ao ouvir estes incríveis 9'43'' do projecto Koenji Hyakki, uma banda de formação improvável: bateria, teclado (órgão), guitarra, baixo e... três vocalistas. Esta música é simplesmente extasiante e é preciso ouvi-la até ao fim para perceber quão complexa é a sua estrutura, sobretudo ao nível rítmico, vocal e composicional (não há uma única nota improvisada). Menciono Philip Glass porque a inebriante parte rítmica e as linhas vocais assemelham-se muito às primeiras composições minimais e repetitivas do músico americano, até pela forma como são construídas as progressões das dinâmicas (com obras como "Einstein on the Beach" ou "North Star"); depois, a energia imprimida pela secção rítmica (bateria e baixo), faz lembrar o grupo hardcore japonês Ruins. Uma mistura realmente inusitada mas muito, muito estimulante. Aliás, percebo agora porque é que a Alternative Press disse isto a propósito dos Koenji Hyakki: "This is not only the most brillant of all the contemporary japonese bands, but perhaps, the greatest group currently operating in the world."

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Monge tibetano industrial?



Já uma vez escrevi um post a explicar porque é que a música dos budistas tibetanos me deixa estarrecido. Das músicas do mundo (world-music), os cantos dos monges tibetanos estão na primeira linha da minha preferência. Ora, uma coisa que nunca me tinha ocorrido era a possibilidade de relacionar a música dos monges do país do Dalai Lama com... música industrial. Foi o que fez o músico japonês Makoto Kawabata (na imagem), mais conhecido por ter pertencido ao grupo japonês de rock psicadélico/noise Acid Mothers Temple. Vem tudo no recente número da revista The Wire, na sempre interessante secção "Invisible Jukebox" (na qual os ouvintes tentam adivinhar e comentar discos que a redacção da revista propõe).
Um dos discos que Makoto ouviu foi um dos monges tibetanos do Mosteiro de Gyuto. Então o músico japonês explica: "Adoro esta música. A primeira vez que ouvi cantos tibetanos, senti que era música industrial para mim. Eu ouvia alguns discos de rock industrial e de noise, até que um dia ouvi um disco de música tibetana com aquelas vozes graves espantosas, aquele incrível eco natural, os instrumentos de sopro hipnóticos e as percussões avassaladoras. Aquele disco era para mim aquilo que a música industrial deveria soar: negra e misteriosa, uma sensação parecida a perigosos objectos metálicos deitados fora, um ambiente de medo e decadência. Há nos cantos guturais dos budistas uma profunda sensação de estranheza que eu sempre atribui à música industrial."
Apesar de um certo exagero nas comparações, compreendo a intenção de Makoto Kawabata. A música dos monges tibetanos tem a mesma força profunda como a mais poderosa música dos Einsturzende Neubauten ou dos Throbbing Gristle. Uma verdadeira força da natureza que varre emocionalmente quem se atreva a ouvir os cânticos tântricos budistas.

O calvário


Acabei de ver o filme vencedor do prémio de cinema europeu mais cobiçado e prestigiado: a Palma de Ouro do último Festival de Cannes (Maio 2008). "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", do realizador romeno Christian Mungiu. Estamos na opressiva Roménia de 1987, no reinado do ditador Ceausescu, e a história desenrola-se à volta de duas colegas de faculdade que são obrigadas a fazer e a criar condições para um aborto clandestino. Todo o filme é filmado num estilo de extrema frieza e sem contemplações, facto que que contribui grandemente para a imersão na terrível realidade abordada. Aliás, semelhanças estéticas com a crueldade relevada no filme "A Pianista" do austríaco Michael Haneke não serão meras coincidências. Sem moralismos ou juízos de valor, sem pestanejar perante a obscura realidade social daquele país do Leste Europeu, o jovem realizador Christian Mungiu, filma os acontecimentos à volta do aborto quase em tempo real e sem recorrer a sentimentalismos (não há sequer banda sonora, como no recente "Este País Não É Para Velhos" dos irmãos Coen) . É todo um regime de Estado que está aqui em causa, uma sociedade minada por dentro, ainda que, no final, as duas jovens se vejam forçadas a seguir o seu caminho como se nada tivesse ocorrido. Viveram o calvário por culpa própria, mas também por culpa do facto de viverem num país socialmente claustrofóbico e politicamente fechado sobre si próprio.
Com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", o promissor cineasta Christian Mungiu conseguiu suplantar a forte concorrência em Cannes - Clint Eastwood, Steven Soderbergh, Fernando Meirelles ou Nuri Ceylan. Um fulgurante filme de estreante que teve o mesmo impacto no Festival quanto a estreia de Tarantino (com "Reservoir Dogs") ou de Soderbergh (com "Sexo, Mentiras e Vídeo").

Discos que mudam uma vida - 29


The The - "Soul Mining" (1990)

A violência num país sereno e desenvolvido


O que motivou o jovem finlandês Matti Saari (na imagem) para chacinar, indiscriminadamente, 10 colegas a tiro? Provavelmente, a mesma motivação que levou o estudante Pekka-Eric Auvinen a matar 8 colegas, há apenas 10 meses atrás, também numa escola finlandesa. Provavelmente, a mesma motivação que levou ao massacre no Virgina Tech há um ano e meio. Sem querer fazer o papel de psicólogo social, porventura, uma motivação que deriva de vários factores conjugados: paixão exacerbada por armas de fogo e pela violência dos videojogos, maior susceptibilidade às mensagens das bandas de rock gótico, propensão para pensamentos auto-destrutivos, etc.
A pergunta essencial passa também pelo contexto social em que ocorreu (pela segunda vez em menos de um ano) este massacre. Num país com altíssimos índices de desenvolvimento e de qualidade de vida económica e social, cujo sistema educativo é referência mundial, como se explicam actos tresloucados como este? Poderá o bem-estar social e a abundância financeira gerar tamanho mal-estar interior num indivíduo? Será esta uma sociedade na qual não existem outros valores senão os paradigmas do ultra-consumismo e do ultra-materialismo? Que Finlândia é esta cuja primeira causa de morte dos jovens entre os 20 e 24 anos é o suicídio? Uma sociedade quase isenta de criminalidade e delinquência, mas cujos dois recentes massacres obrigam a repensar que juventude é esta que mata e se mata. Uma sociedade da opulência material mas vazia, desorientada e sem ideais de vida.
No Público de hoje, pode-se ler um perturbante depoimento de uma cidadã finlandesa sobre a sociedade finlandesa e que pode explicar (em parte), este segundo caso de extrema violência na terra da Nokia: “Acho que estamos a viver bem demais. Em tempos de guerra, as pessoas entreajudam-se e têm um propósito de vida. Nos tempos actuais, os finlandeses não têm desafios, nem nada por que lutar.”

terça-feira, 23 de setembro de 2008

David Lynch vs. Gucci

Um bom número de realizadores que hoje fazem carreira no cinema começaram na publicidade. David Fincher, Guy Ritchie, Spike Jonze ou Michel Gondry são apenas alguns nomes. O mundo da publicidade é o primeiro palco de promoção artística de um cineasta, o espaço de experimentação e onde o realizador afirma a sua linguagem estética. Por questões de visibilidade ou por motivos meramente financeiros, realizadores consagrados também se entregam aos ditames comerciais da publicidade. É o caso de David Lynch, que já assinou vários spots para produtos como perfumes ou automóveis.
Mas o que pode acontecer quando uma marca credenciada como a Gucci contrata o credenciado realizador David Lynch para assinar um recente anúncio publicitário para a televisão? Pode acontecer que Lynch incuta no anúncio a sua costela visual bizarra e surreal. Ou pode acontecer uma mistura desse seu universo tão pessoal com uma cedência estética de teor mais comercial. E é o que acontece com esta publicidade que David Lynch filmou para a Gucci. Em apenas um minuto, identificamos o estilo visual de Lynch, mas numa abordagem menos arrojada do que é habitual nos seus filmes. Seja como for, é um magnífico spot televisivo, pela forma como encadeia os planos da loura platinada, o impacto das cores fortes e saturadas, a música de Blondie a entrecruzar-se com os movimentos sensuais da actriz, os gestos em câmara lenta e os subtis sons bizarros do final. Está criado o ambiente luxuoso e exclusivo, precisamente de acordo com os fins promocionais e comerciais de um produto como o perfume Gucci.

A gasolina baixou


I'm an gasoline man
I dunno where I go
I'm gonna drive and drive
I wanna get there on time

I'm an gasoline man
That's the way i feel
I wanna take my handand
Put it on the wheel

I'm an gasoline man
Gonna set your world
On firei'm gonna drive and drive
Find out where you hide

Say an little prayer for the mother
Gasoline baby
Say an little prayer for the mother
Let's go for an ride!

Palin há dois (pelo menos)



Desde que foi anunciada a nomeação de Sarah Palin para vice-presidente de John McCain que me lembrei imediatamente de Michael Palin. E este raciocínio deve ter sido comum a milhares de fãs da trupe de anarco-humoristas Monty Python. Isto porque Michael Palin era um dos meus actores favoritos do grupo, a par de John Cleese. Ora, o inevitável aconteceu. Foi uma questão de tempo até que alguém se lembrou de misturar Sarah Palin com Michael Palin, gozando com a candidatura republicana à presidência dos EUA. O movimento tem o frontal nome de “Michael Palin for President”, com direito a um site (ainda embrionário, calcula-se) e a um vídeo que já está a abanar as hostes do politicamente correcto. No vídeo, podemos ver excertos de sketches antigos dos Monty Python nos quais Michael Palin foi protagonista, abordando assuntos comuns no debate político actual: economia, ambiente, diplomacia, questões militares, educação, etc. O interessante é ver como o humor corrosivo e subversivo dos Monty Python se encaixa no ultra-conservadorismo do partido republicano (e de Sarah Palin em particular), o que gera um efeito interessante de “distorção da realidade”.
O conteúdo da mensagem do vídeo, delapidando as qualificações políticas de Sarah Palin à custa das tiradas de Michael Palin, tem a sua piada, mas não provoca mais mossa do que isso. Pena é que o apelido de Barack Obama não tenha correspondência directa com nenhum outro actor dos Monty Python ou, em alternativa, com qualquer outro comediante. Seria interessante assistir a um duelo titânico entre as duas facções da barricada político-humorística.
O Público online divulgou o referido vídeo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O novo Eastwood


O último dos grandes mestres do cinema clássico de Hollywood, Clint Eastwood, vai estrear brevemente na Europa o seu mais recente filme, "Changeling". Conta com Angelina Jolie e John Malkovitch nos principais papéis, numa película baseada em factos reais ocorridos entre 1928 e 1930 - uma mãe que luta contra a corrupção e injustiça no sentido de procurar a verdade acerca do desaparecimento do seu filho.
Trailer aqui.

Que tal uma língua bifurcada?

Há algun dias, a comunicação social fez alarido com a notícia sobre a proibição de tatuagens imposta pelo clube Real Madrid aos seus jogadores. A justificação para este acto de censura prende-se, alegadamente, por questões higiénicas e de saúde. Dias depois, li na imprensa nacional uma reportagem sobre o fenómeno (há quem classifique de moda) cada vez mais crescente de tatuagens nos jogadores a actuarem no campeonato português. Só no FC Porto, há diversos jogadores que ostentam no corpo múltiplas tatuagens das mais diversas índoles, cores e formas. Como a tatuagem está ligada à cultura tribal e guerreira, não me espanta que os desportistas adiram à modificação corporal através da tatuagem. Basta ver que é muito difícil de identificar um jogador de basquetebol da NBA que não tenha diversas tatuagens no corpo (o ícone maior é o jogador Dennis Rodman). A tatuagem representa uma iconografia própria, uma imagem estética que gera identidade, afirmação e uma certa irreverência visual.
Se há uns anos era quase uma ousadia sem remissão um jogador de futebol ostentar tatuagens no corpo, agora é já uma moda instituída (como era o uso do cabelo comprido nos anos 80) que ninguém contesta. Mais do que a cultura da tatuagem que já se introduziu em muitos campos da actividade profissional (isto é, passou de uma cultura underground para uma cultura massificada), o que ainda se torna um assunto tabu, nos dias de hoje, são as modificações corporais dos chamados “modernos primitivos”. De tempos a tempos, surgem novas formas engenhosas e surpreendentes de modificação de uma determinada zona corporal, não sem raro causar choque e estupefacção. Mas não foi por causa disso que não foi criada nos EUA uma Igreja da Modificação Corporal. Implantes ou amputações, alterações radicais da fisionomia (dentes, língua, rosto, pele), suspensão do corpo com ganchos, piercings radicais, são algumas das formas mais recentes de radicalização extrema do corpo, indo até aos limites do conceito de humano e de identidade corporal. Um dos últimos fenómenos de moda de modificação corporal – mais ainda restrito a uma pequena minoria de corajosos – é a bifurcação da língua (bífida), tal e qual uma serpente, ou a implantação de objectos de silicone por baixo da pele.
Os especialistas referem que o corte da língua em duas pontas (só através de cirurgia) é consideravelmente doloroso e requer uma longa recuperação. Já a inserção de formas de silicone debaixo da pele é um procedimento menos complicado, mas não menos impressionante no resultado final. Qual a ideia de quem faz este tipo de modificação corporal? A ideia é produzir efeitos dramáticos e inusitados aos olhos de quem vê. É criar uma identidade alternativa, única e diferente do comum dos mortais. É criar uma nova "espécie de humanos" (como alguns defendem), uns seres híbridos e bizarros, que destronem as convenções da fisionomia natural. E isto já para não falar da fusão entre o humano/biológico e o tecnológico/cibernético, que dá azo a uma maior discussão. Manifestações de cultura urbana contemporânea que vão buscar inspiração a rituais de tribos ancestrais.
Voltando ao tema inicial deste post, agora é só esperar para ver quanto tempo demora a chegar aos jogadores de futebol esta nova tendência de modificação corporal.
Já estou a imaginar o Raul Meireles ou o Ricardo Quaresma, dois adeptos de tatuagens, com uns implantes subcutâneos ou a exibição da língua bifurcada!


Tarkovski - as fotografias

É uma notícia que já tem vários meses, mas só hoje soube dela através do blogue sound + vision: o lançamento de um livro com fotografias (polaroids) do realizador russo Andrei Tarkovski, poemas do seu pai, Arseni Tarkovski e prefácio do filho, Andrei Tarkovski Jr. O livro tem o belo título de “Bright, Bright Day” e é uma edição conjunta da Galeria White Space e da Fundação Tarkovski de Florença. Tarkovski era um aficionado amador da fotografia, gostava dela como antecâmara das imagens em movimento que tão bem conseguiu explorar no grande ecrã. O cineasta fotografava actores, familiares (mãe, filho), cenários de filmes, paisagens para estudar enquadramentos de câmara, a realidade do dia-a-dia do seu exílio forçado em Itália e na Suécia. Certamente que será um documento precioso para compreender melhor toda a complexidade artística e visual de um dos criadores mais fascinantes e místicos da Sétima Arte.
Para ler mais informação e encomendar o livro (tem o preço pouco simpático de 30£) é favor abrir o link. Complementarmente, o site andreitarkovski.org, informa sobre 4 novas edições de livros de ensaios sabre o autor de “O Sacrifício”.

sábado, 20 de setembro de 2008

Díptico - 29


"Primeira Pessoa" e "Prova de Vida" - Pedro Mexia

Dalí e o cinema


Que relações teve o excêntrico pintor Salvador Dalí com o cinema? De que forma a arte do cinema influenciou a sua pintura ou vice-versa? Sabe-se que houve um projecto abortado entre Walt Disney e Dalí para a realização conjunta de um filme de animação surrealista. E sabe-se da colaboração de Dalí com Luís Buñuel, nos filmes "Un Perro Andaluz" (1928) e "La Edad de Oro" (1930). E Hitchcock encomendou a sequência do sonho a Dalí para o magnífico filme "Spellbound" (1945), na imagem. São estas e outras relacções que surgem no livro "Dalí y el Cine", que será editado no dia 26 de Setembro em Espanha. Textos, fotografias e desenhos do pintor e análise de diversos estudiosos servem de ponto de partida para esta descoberta entre Dalí e o cinema. Uma relação por certo tão fascinante e inusitada quanto a sua própria vida (e obra).
Ver mais informação aqui.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Uma questão de t-shirt


Hoje tive um ataque de nostalgia ao passar na rua por um miúdo com uma t-shirt dos Joy Division, igualzinha a esta. Não tinha mais de 16 ou 17 anos, exactamente a idade com que eu me tornei fanático do grupo de Ian Curtis e que envergava, de igual modo, as t-shirts dos Joy Division. Há anos e anos que não vejo ninguém vestido com uma t-shirt de um grupo de que gosto, especialmente, dos Joy Division. E mais especialmente ainda, por se tratar de um adolescente, e não de um trintão saudosista das bandas de que gostava quando jovem. Nos anos 80 havia o culto das t-shirts das bandas preferidas. E havia t-shirts dos grupos mais estranhos e obscuros. Era como que um ritual de identificação à volta dos gostos musicais cuja representação visual era sustentada, de forma orgulhosa e altiva, pelas inevitáveis t-shirts. Era assim com a comunidade de amantes de rock alternativo, como era para a de música experimental ou para o grupo de fãs de death-metal. De há uns bons anos a esta parte, parece-me que este fenómeno se esbateu sobremaneira. Os rituais de identificação da cultura juvenil assumiram outros códigos na era da tecnologia digital.
Pergunto-me qual a razão que levará um adolescente de hoje a gostar de uma banda depressiva que já não existe há 28 anos e cujo vocalista se suicidou. Claro que o "hype" à volta do filme "Control" de Anton Corbijn e do documentário "Joy Division" de Grant Gee poderão ter sido condicionadores. Mas há uma grande diferença entre a experiência de conhecer a música de "Closer" hoje ou a de ter conhecido em meados dos anos 80, quando ainda se faziam sentir os despojos estéticos da geração pós-Manchester. Seja como for, confesso que gostei de ver um miúdo a envergar Joy Division ao peito. Só espero é que seja por gostar mesmo da música e não por questões meramente estéticas. Fico sempre com esta dúvida desde que perguntei a uma jovem que ostentava uma mala com a figura de Jack Skellington se gostava do filme "Nigthmare Before Christmas" e me respondeu que não sabia o que isso era...

Mauricio Kagel - RIP



Mauricio Kagel (1931 - 2008) - compositor argentino
"A música é como uma língua acústica que se altera ao ritmo das expectativas que o indivíduo e a sociedade, em cada tempo, dela têm ou nela depositam. A importância da nova música está dependente de uma ‘iluminação em permanência’ - esclarecer as pessoas e educá-las. Sim, desde que se deixem educar. Ensino aos meus alunos a honestidade e rectidão de carácter. Se aprenderem a não mentir, têm hipóteses de se descobrir."

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

George Antheil - Bad boy of music


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o poianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.

Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

A força de um Festival


Hoje tem início a 56ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, que se prolongará até ao próximo dia 27 de Setembro. Uma das primeiras estrelas a pisar a passadeira vermelha (não sei se era vermelha, mas também não importa), foi este senhor de eternos óculos de massa pretos e trejeito desengonçado. Vai ao festival estrear o seu novo filme, "Vicky Cristina Barcelona", protagonizado pela actriz espanhola Penélope Cruz e a sua mais recente musa, Scarlett Johansson. Muitas expectativas estão criadas para esta nova obra de Woody Allen, e se "Vicky Cristina Barcelona" (título bizarro!) tiver metade do sumo de "Match Point", já valerá muito a pena.
Durante os próximos dias, San Sebastian receberá muitas outras figuras da 7ª Arte: Meryl Streep, Jonathan Demme, Michael Ballhaus, Javier Bardem, Antonio Banderas, Paul Thomas Anderson, John Malkovitch, Martina Gusman, Ben Stiller, Robert Downey jr., Vera Farmiga, Mark Herman, Colin Firth, Michael Winterbottom, entre outros. Mas como um bom festival de cinema com projecção internacional não se faz apenas com estrelas, haverá muitas estreias, conferências, secções oficiais, competitivas, música e outras actividades para aguçar o apetite cinéfilo.

Humberto Solas


Morreu ontem um dos realizadores mais importantes do cinema cubano e de toda a América Latina: Humberto Solas (1941 – 2008). Solas foi um dos fundadores do Festival do Cinema Pobre, espaço de promoção do cinema emergente latino-americano e de cinematografias alternativas. Algumas das obras mais marcantes do realizador constituem autênticos baluartes do cinema moderno cubano: "O Século das Luzes" (1991), "Barrio Cuba" (2005), e "Lucia" (1970). Fazia cinema com parcos recursos mas com sólida linguagem estética e conceptual, revelando os males de uma sociedade de contradições como a cubana.
Só vi um filme de Humberto Solas, “Barrio Cuba”, mas tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente há 4 anos, numa mostra de cinema ibero-americano realizada na Guarda. Humberto era um dos oradores da secção de conferências. Travámos conhecimento e convidou-me para tomar café. Estivemos quase uma hora a conversar, predominantemente, sobre cinema. Solas manifestou uma humildade tocante, mas ao mesmo tempo, um certo desencanto por não ter conseguido concretizar todos os seus projectos durante a sua carreira. Falou das suas experiências e da forma como angariava o (pouco) dinheiro para os seus filmes; a sua relação de amor-ódio com a sua pátria Cuba; a sua profunda admiração pela figura e arte de Luís Buñuel e o seu conhecimento de algum cinema português – Manoel de Oliveira e João César Monteiro. E recordo, igualmente, o tom amargurado com que admitiu a indiferença a que é votado o cinema latino-americano por parte dos EUA e da Europa.
Desde essa breve conversa, numa mais tive novidades do realizador cubano. Até hoje, ao deparar-me com a infeliz notícia da sua morte.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Díptico - 28


Charlie Chaplin ("O Grande Ditador", 1940 ) e Adolf Hitler (Nuremberga, 1934)
Discurso final de Hynkel (Chaplin):
"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, seguimos por outro caminho. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criámos a época da produção veloz, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz em grande escala, tem provocado a escassez. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura!"

Darren Aronofsky - o primeiro capítulo














O Leão de Ouro da 65ª edição do festival de Veneza foi para o filme "The Wrestler" de Darren Aronofsky. O filme retrata os dias decadentes de um ex-combatente de wrestling, interpretado por um - ao que parece- excelente Mickey Rourke. Como não vi o filme, resta-me apenas dizer que este prémio confirma o extraordinário talento do realizador Darren Aronofsky (apesar do apelido é nova-iorquino de gema), após o seu primeiro filme "Pi" (1998) ter ganho o Prémio de Melhor Realizador do Festival de Cinema de Sundance. "Pi", filmado numa inquietante fotografia a preto e branco, é uma incrível viagem surreal pela mente de um génio matemático que tenta compreender a natureza, o homem e os mecanismos da bolsa (!) através de uma fórmula matemática. Foi uma estreia estrondosa por parte de Aronofsky, com um filme altamente engenhoso, uma montagem frenética e uma notável utilização da banda sonora (de Clint Mansell, ex-elemento do grupo Pop Will Eat Itself). Quando vi o filme pela primeira vez, confesso ter pensado imediatamente que Aronofsky se tinha estreado no cinema com uma obra independente tão retumbante como a primeira obra do David Lynch, o mítico "Eraserhead" (1977).
"Requiem for a Dream" (2000) conseguiu o difícil feito de superar a originalidade do primeiro filme. Espantosa meditação sobre o mundo das dependências (drogas, televisão, substâncias diversas) e do universo degradante (físico e psicológico) que provocam a quem se submete a elas. A actriz Ellen Burstyn foi nomeada ao Óscar de Melhor Actriz pela sua impressionante interpretação. Darren Aronofsky consegue, neste "Requiem for a Dream", construir aquele que será o filme definitivo (e sem moralismos primários) sobre um certo mundo actual, desfasado da realidade e repleto de mentes alienadas. Dois anos depois, surge "The Fountain - O Último Capítulo", o realizador e argumentista Darren Aronofsky decide repartir a narrativa em três momentos e espaços distintos: a época das conquistas quinhentistas, o presente e o futuro. Com uma qualidade visual e plástica deslumbrante, "The Fountain" debruça-se sobre temas eternos como a transcendência da alma, a ideia do amor como linha condutora de todas as nossas acções, a memória como elemento catalisador e uma certa reflexão filosófica sobre a mortalidade.
Por conseguinte, com "Pi", "Requiem for a Dream" e "The Fountain", Aronofsky criou uma trilogia de grande coerência estética (ainda que possa não parecer) e de invulgar fulgor artístico. Uma espécie de primeiro capítulo para uma longa carreira. Com o recente e já premiado "The Wrestler", Aronovsky volta a dar cartas no cinema contemporâneo. Vamos ver o que nos espera, daqui a dois anos, o seu próximo projecto chamado... "RoboCop". Esperemos que este filme de cariz manifestamente comercial e de encomenda, não desvirtue as imensas qualidades deste cineasta que um dia disse "When I go to movies I generally want to be taken to another world". Não queremos todos?


Canções do abismo


Se quisermos fazer uma dicotomia simplista das emoções na música, poderíamos dividir entre a música alegre e a triste. São duas acepções reducionistas, é certo, mas funcionam como indicadores e referências básicas para o que quero explicar. Esta dicotomia pode ser perfeitamente subjectiva e pessoal, na medida em que cada ouvinte reage de forma distinta a estímulos estéticos em geral, e sonoros em particular. Se alguém pode sentir melancolia ao ouvir uma música rotulada como depressiva, outro alguém pode interpretá-la de outra forma (quase) oposta. A personalidade individual de cada pessoa, a sua formação cultural e as suas vivências são os critérios definidores acerca das reacções emocionais que cada música provoca.
Seja como for, é indubitável que há canções que apelam à negritude dos abismos emocionais, enquanto outras sugerem estados de espírito mais positivos e ligeiros. De que lado da barricada existem as canções mais belas, as mais pungentes e tocantes? Porventura, nos dois lados. Pessoalmente, sempre me tocaram mais as canções de matriz melancólica e angustiada, ou não tivessem os Joy Division exercido uma profunda comoção em mim quando adolescente.
O site List Universe listou uma curiosa lista de 10 canções rock tidas como depressivas (com uma breve caracterização de cada uma delas). Todas elas são, efectivamente, grandes canções, no contexto da música e das letras. Estão lá os inevitáveis Joy Division, Jeff Buckley ou Smiths, mas também uns improváveis Tool e The Velvet Underground. Quem quiser que ouça e julgue por si mesmo. De todas estas canções referenciadas, a que ainda hoje me causa mais arrepios na alma é negríssima “One Hundred Years” dos The Cure, da fase mais negra de Robert Smith. Só de ouvir os primeiros riffs de guitarra angustiada, a batida marcial e os versos “It doesn't matter if we all die, ambition in the back of a black car, the fear takes hold, waiting for the death blow”, me dá logo vontade de ir ali cortar os pulsos e voltar…



segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Madonna - o ponto de não retorno



João Lopes e Nuno Galopim são dois jornalistas pelos quais tenho o maior respeito. Lopes é um veterano crítico de cinema da imprensa portuguesa que me habituei a ler durante anos e Galopim um crítico de música (menos veterano que Lopes) que marcou uma época no Diário de Notícias. Ambos têm um blogue bem referenciado na blogosfera portuguesa - sound + vision. Um espaço que reflecte - como só João Lopes sabe fazer - uma vez que é o principal redactor do blogue - as tendências e novidades da cultura pop contemporânea. Ora, para quem acompanha regularmente o blogue do João Lopes e do Nuno Galopim, sabe que os dois são fãs de Madonna. Sobretudo o João Lopes, que tem dissertando abundantemente sobre as transfigurações de imagem da dita rainha da pop e da sua projecção no contexto da evolução da música pop dos últimos 20 anos. O crítico de cinema tem publicado largas dezenas de posts sobre a Madonna no sound+vision, assinalando os 50 anos da cantora de "Like a Virgin".
Nada contra o facto de João Lopes, jornalista que considero de grande craveira intelectual e sólida formação cultural, seja fã irredutível de uma artista pela qual não nutro a mínima admiração (não chego aos pés de uma certa virulência do blogger Marco Santos!). Isto para dizer que me espantou ler o seu texto de análise sobre o concerto no Parque da Bela Vista. E logo
no conteúdo da primeira frase, quando diz: "Ao todo fomos 75 mil no Parque da Bela Vista. Ninguém deverá ter saído desiludido... Mas ficou a sensação de termos assistido ao final de uma etapa." Parece-me que a admiração cega de Lopes por Madonna lhe toldou o discernimento. Explico: quem garante ao João Lopes que todas as 75 mil pessoas que assistiram ao concerto não saíram desiludidas? É que todas as referências que li hoje na net (fóruns de música, blogues, jornais...) sobre o balanço do mesmo apontavam para uma desilusão. Fosse opinião de espectador ou de crítico, como a opinião de João Gonçalves. Mais: num concerto que alguns nem conseguiam ver de binóculos, seria estranhíssimo que todas as 75 mil almas tivessem saído maravilhadas de um espectáculo que era mais do que previsível e cujas referências e investimento continuam a centrar-se mais na cenografia colossal, nas luzes, nos vídeos propagandísticos e nas coreografias vistosas, do que propriamente na música. A esse título, é bom reter a opinião da grande maioria de espectadores que saíam do parque da Bela
Vista e que foram entrevistados pelas várias televisões: o discurso elogioso acerca do espectáculo proferido pelos espectadores centrou-se sempre na grandiosidade do aparato visual e cénico e quase nunca na música. Ah, também foi mencionada a boa forma física da cantora...
Depois, dificilmente se conseguiria reunir a unanimidade crítica no conjunto de 75 mil espectadores. Curioso constatar que João Lopes acaba o seu texto, precisamente, a antever a necessidade de reinvenção do espectáculo da Madonna, ao asseverar: "As frequentes pausas para tocar guitarra não escondem a necessidade de “repouso” em cena. Nada de errado na opção. De resto, pode nascer nessa pose uma nova ideia de concerto para um futuro não muito distante. Em salas mais pequenas, sem aparato. Apenas as canções... Porque não?" Sim, porque não? Talvez porque com a anulação de todo o aparato visual Madonna não conseguiria seduzir tantas dezenas de milhar de pessoas nem gerar as receitas astronómicas que gere com a actual "Sticky and Sweet Tour". A minha opinião é que, por mais que Madonna quisesse, chegou a um tal elevado estatuto de estrela planetária que já não lhe permite, de todo, optar por uma solução de concerto mais intimista centralizado apenas nas canções. Seria defraudar os fãs. É a lógica do mercado e do espectáculo.
Afinal de contas, a máxima será sempre: "There's No Business Like Show Business".

A ficção nacional e o ananás ao pequeno-almoço


Enquanto a TVI se prepara para fazer um programa especial dedicado à ficção nacional (leia-se: festa fútil para desfile de vaidades), a actriz Rita Blanco vem dizer no Expresso o que pensa da dita ficção portuguesa: "o produto televisivo em Portugal é feito à pressão, é uma espécie de meia bola e força, e está feito. O problema começa nos castings e continua nos técnicos e realizadores. As séries só têm formato de série, mas são produzidas como telenovelas e as telenovelas são de bradar aos céus. A realização, a produção e a representação são de ir às lágrimas. Só gosto de as ver para me rir com os pequenos-almoços dos portugueses, que comem todos ananás e papaia logo de manhã! Realizadores, produtores e directores de estação deveriam ter mais cuidado, esforço e seriedade."
Para uma actriz que já participou em séries televisivas e telenovelas, louva-se-lhe a coragem e a frontalidade crítica. Na realidade, a ficção televisiva portuguesa (séries dramáticas ou cómicas e telenovelas) está amarrada a estereótipos e lugares-comuns, dos argumentos à representação, num universo misto de actores consagrados (vindos quase todos do teatro) e de jovens estreantes com pinta de modelo que se julgam verdadeiras estrelas hollywoodescas (não sou eu que o digo, são pessoas que lidam diariamente com a arrogância dos novos actores que comprovam isso mesmo). Como diz o realizador António Pedro Vasconcelos, a ficção portuguesa é medíocre em todas as frentes, e apesar da experiência acumulada com os anos de existência das estações privadas, parece que se regrediu em vez de se avançar.
Rita Blanco pode ser uma mulher, a mais das vezes, meia destrambelhada e extravagante - faz parte já da sua imagem de marca - mas quando fala a sério - sabe o que diz e di-lo com toda a frontalidade.

domingo, 14 de setembro de 2008

Public Enemy: 20 anos de agitação


Este Verão comemoram-se 20 anos da edição de um dos discos mais importantes da música popular urbana: "It Takes a Nation of Millions to Hold us Back" dos Public Enemy, porventura o grupo hip-hop mais influente de sempre. Editado pela editora Def Jam Recordings, este disco marcou uma revolução no hip-hop e significou um marco na forma de criar e produzir um disco. O semanário musical inglês New Musical Express colocou o disco em 9º lugar numa lista dos "Melhores Álbuns de Sempre". Apesar da linguagem musical de base ser o hip-hop, o grupo liderado pelo agitador político Chuck D, construiu em "It Takes a Nation of Millions to Hold us Back", um verdadeiro manifesto estético com repercussões ainda hoje assumidas como determinantes para a evolução da música contemporânea. A imagem militarista do grupo, as letras incendiárias a apelar à revolução negra, os ritmos abrasivos hardcore (como nunca se tinham ouvido num disco hip-hop), a utilização inovadora dos samples (ruídos de sirenes, efeitos industriais, discursos políticos, etc) e do scratching de Terminator X, o fraseado rap fulgurante de Chuck D e Flavor Flav, a defesa da ideologia radical da raça negra proclamada por Malcolm X, tudo se conjugou para que este segundo álbum do grupo representasse um rasgo impressionante de criatividade sonora e estética. O realizador negro Spike Lee utilizaria mais tarde um dos hinos dos Public Enemy, "Fight the Power", como ilustração musical do magnífico filme "Do the Right Thing" (1989).
Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que comprei o disco (vinil) dos Public Enemy. O hip-hop nunca tinha sido um género que me entusiasmasse. Mas o conceito explorado pelos Public Enemy era qualquer coisa de diferente e ousado. Comprei o vinil na já extinta loja de discos Tubitek do Porto, em 1989. Um disco que me causou impacto e surpresa, pela forma enérgica das canções e pelo activismo político como raramente tinha visto (e ouvido). "It Takes a Nation of Millions to Hold us Back" continua, passados 20 anos, impermeável à erosão do tempo ou das modas. Continua cáustico e radical, original e desassombrado. Continua influente para o hip-hop, a electrónica e o rock (não esquecer a colaboração dos Public Enemy com os Anthrax). Foi um disco feito numa época específica da sociedade americana, mas não deixa por isso de ser actual e interventivo nos tempos de hoje. E continua a ser um "disco que muda uma vida", como já tinha referido aqui.


Discos que mudam uma vida - 27


Captain Beefheart and his Magic Band - "Safe as Milk" (1967)

Um disco e um site a descobrir


Um amigo mandou-me por mail um link para descarregar um disco que, dizia-me, iria gostar (não se enganou). O referido disco é "Drumboy" da dupla Elitsa Todorova & Stoyan Yankoulov, editado em 2004. Não conhecia. Elitsa e Stoyan, como também são conhecidos, são dois consagrados percussionistas (ela é também cantora) oriundos da Bulgária e, na verdade, assinaram com "Drumboy" um disco esplêndido, feito de canto búlgaro tradicional, ritmos explosivos e etéreos, e sonoridades da tradição musical balcânica. Um dos temas conta com a colaboração de um dos mais respeitados músicos búlgaros, o clarinetista Ivo Papazov. Recomendo vivamente a audição e a descoberta do disco, o qual pode ser descarregado neste link. Já agora, sugeria também uma visita à página oficial da cantora Elitsa Todorova, que chegou a cantar nos reputados projectos "Mystery of Bulgarian Voices" e "Cosmic Voices from Bulgaria". Após uma breve pesquisa, fiquei também a saber que a dupla participou no festival da Eurovisão em 2007, tendo ficado em 5º lugar com uma canção chamada "Water", manifestamente de teor mais comercial. Pode ser visto aqui.
Mesmo para quem não queira seguir esta minha sugestão de ouvir o fabuloso disco "Drumboy", pode sempre pesquisar o sítio no qual este disco está disponível: Stigma Rest Room, um site que disponibiliza milhares de discos catalogados por dezenas de géneros e tendências musicais diferentes. Por exemplo, existem 223 discos na categoria de "electrónica"; 100 em "world music", 59 em "prog rock" e por aí fora. Discos de muitos géneros e de épocas distintas prontos a instalarem-se no nosso computador à distância de um clique. No que me diz respeito, já comecei a descarregar grande parte da secção "soundtrack" dedicada às bandas sonoras para cinema!


Agora a um preço simpático


Por três ocasiões escrevi - aqui - sobre o génio esquecido de Harold Lloyd (1893 - 1971), uma das grandes figuras da comédia burlesca americana do cinema mudo, a par de Buster Keaton e Charlie Chaplin. Uma dessas ocasiões foi para criticar o preço exorbitante (90€) de uma caixa de 7 DVDs (à venda na Fnac) com a filmografia de Lloyd, e ainda por cima de importação. Ora, a boa novidade é que acaba de ser lançada uma caixa de DVD portuguesa contendo 10 discos com o essencial do cinema de Harold Lloyd e mais um disco de extras (documentários, entrevistas, etc). O preço é bem mais razoável - 49,95€. Segundo o crítico de cinema do Expresso, Manuel Cintra Ferreira, os DVDs têm uma excelente qualidade visual resultante da restauração das imagens originais dos filmes. Sem dúvida uma excelente oportunidade para conhecer, em 24 horas de visionamento dos seus filmes, a obra de Harold Lloyd, referência absoluta na arte da comédia de toda a história do cinema.