quinta-feira, 31 de julho de 2008

A filosofia segundo...


Tal como referi, de forma mais desenvolvida, neste post a propósito do livro "A Filosofia Segundo Woody Allen", queria agora lembrar que acabaram de ser lançados mais dois interessantíssimos volumes que dão continuidade ao primeiro: "A Filosofia Segundo Seinfeld" e a "Filosofia Segundo Monty Python". A temática continua a focar-se na ralação entre o cinema, o exercício humorístico e os ensinamentos de carácter filosófico, características bem patentes em qualquer destes três grandes criadores (Allen, Seinfeld e Python). Os livros são escritos por reputados filósofos admiradores dos artistas focados. Apesar de ser mais fã da trupe de "O Sentido da Vida" do que de Seinfeld, conto adquirir os dois livros. Se forem tão lúcidos e pragmáticos quanto o livro dedicado ao cinema de Woody Allen, valerá bem a pena.
Os três livros são editados pela Estrela Polar.

Um assobio nostálgico

Nunca houve um Verão mais azul do que este. Nem uma melodia assobiada mais viciante do que esta. Nem uma série juvenil de televisão mais marcante do que esta.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Livros para férias

Se há assunto que vem à baila sempre que se fala de férias, é o do "livros para férias." Inquéritos a personalidades mais diversas (desde o jet-set até ao intelectual empedernido), referem sempre os livros que vão ler nas férias. Os nossos amigos e familiares têm a mesma mania. A verdade é que nunca percebi muito bem porque é que nas férias de Verão se deva - ou se consiga ler - mais do que nas restantes estações do ano. É uma falácia. Eu já tentei. E acabai quase sempre por trazer para casa os livros que queria ler e que não consegui (ou não me deu vontade) ler uma página. À partida será pela suposta disponibilidade e tempo para a leitura. Mas este facto não é válido para toda a gente. O culto do ócio e da preguiça (que ajuda a reflectir, dizia o escritor Albert Cossery) é uma premissa que deve presidir nas prioridades do tempo de férias. Logo, a leitura não se torna um recurso de primeira necessidade. Pelo menos para os que têm por hábito ler (e muito) o resto do ano (como eu).
Viajar, estar com os amigos e a família, passear até ao desconhecido, fazer desporto, beber copos até às tantas, olhar para o tecto sem fazer nada, ver todo o dia o canal História e Odisseia, ouvir música ininterruptamente, apanhar brisa do mar ao fim da tarde, visionar na íntegra as últimas séries do "Lost" e "Prison Break", são apenas algumas actividades que se podem fazer durante o (sempre curto) período de férias. Para quê massacrar ainda mais o escasso e preciso tempo com leituras que se podem retomar no regresso à rotina habitual?

Retrato do artista quando jovem - 5


Friedrich Nietzsche

Andrei Tarkovsky

Yoko Ono
William Faulkner

Leo Tolstoi

Marlon Brando

Kenneth Anger

Joan Crawford

Jacques Tati
Hermann Hesse

Groucho Marx

Retrato do artista quando jovem - 4


Noam Chomsky

Brian Wilson

Ingmar Bergman

Montgomery clift

Albert Ayler

Hermann Hesse


Groucho Marx










Gore Vidal






















Ezra Pound














































Noam Chomsky






























































































Brian Wilson






























































































































































































David Bowie






























































































































































































































































































































































































Ingmar Bergman






























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Montgomery Clift






























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Albert Ayler































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































terça-feira, 29 de julho de 2008

Díptico - 20


Helmut Newton: "Elas vêm aí" (1981)

O artista provinciano


"O artista é sempre um provinciano. Ele vive entre um mundo tangível e um intangível - essas são as fronteiras da sua província."
Federico Fellini

Novidades da dupla Byrne - Eno


O Disco Digital noticiou uma pequena e breve notícia que é inversamente proporcional à sua importância: pela primeira vez em quase 30 anos, os respeitadíssimos músicos David Byrne e Brian Eno voltaram a colaborar para a criação de um disco em comum. A notícia é tanto mais importante quanto sabemos que ambos foram autores de um dos mais seminais e influentes discos da história da música pop: "My Life in the Bush of Ghosts", editado em 1981 (a foto deste post refere-se ao tempo da composição do disco). Um disco crucial pela forma como cruzou, de maneira precursora, as linguagens pop, electrónica e étnica, tendo influenciado gerações de bandas, músicos e DJ's. A mestiçagem musical, as fusões que anteciparam as correntes estéticas fusionistas, nasceram com este álbum de Eno e Byrne.
Ora, o que se sabe é que Brian Eno e David Byrne já têm um álbum novo gravado e, pelos vistos, pouco terá a ver com o referido "My Life in the Bush of Ghosts". É tido como um disco de "gospel electrónica". Se tiver metade da audácia criativa do primeiro álbum concebido em dueto, certamente que será suficiente para marcar o ano discográfico no que se refere a novas ideias e conceitos.
O disco vai chamar-se "That Happens Will Happen Today" e o primeiro single, gratuito, tem o nome de "Strange Overtones" e vai ter distribuição gratuita na internet já no próximo dia 4 de Agosto (marquem na agenda). Para tal, basta subscrever o campo no site do duo para receber a música. Depois, o álbum terá distribuição online (a pagar) e edição física em CD com design gráfico de Stefan Sagmeister, reconhecido autor austríaco de capas de discos de Lou Reed, Rolling Stones ou Pat Metheny. David Byrne partirá em digressão em Setembro para promover este disco (sem esquecer o reportório a solo e com os Talking Heads).
Para entrar no site de Byrne e Eno, basta carregar neste link e esperar por novidades frescas e estimulantes por parte de dois dos mais talentosos músicos da pop dos últimos 30 anos.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O fotógrafo que procura olhares



Cinematograficamene falando, Kevin Connolly poderia ter saído do filme "Freaks" (1932) de Tod Browning, filme no qual os protagonistas são seres humanos que trabalham num circo e que possuem deficiências físicas incomuns e impressionantes. Isto porque Connolly nasceu sem pernas - possui apenas tronco e membros superiores. Isso não o impediu de viajar pela Europa (percorre as cidades num skate) e de fazer o que mais gosta: fotografia. Pelo facto de se sentir incomodado com os olhares indiscretos das pessoas na rua perante a sua invulgar condição física, Kevin Connolly resolveu aproveitar-se disso e, num misto de projecto artístico e de expiação de complexos, resolveu viajar por 15 países para fotografar as reacções das pessoas que olhavam para ele. Deste projecto resultaram 32 mil fotografias.
Segundo as próprias palavras de Kevin Connolly, as reacções foram as mais diversas: “Na Ucrânia vieram-me perguntar se eu era um homem santo ou um mendigo. Em Viena, as pessoas achavam que eu era mesmo um indigente". As fotografias de Connolly resultaram em olhares, milhares de olhares incrédulos de pessoas que olhavam de cima para baixo, tentando perscrutar quem era aquele ser em cima de um skate e o que fazia com uma máquina fotográfica em punho. Há, nestas fotografias, toda uma genealogia visual sobre preconceitos sociais e sobre o conceito de diferença física. Deste projecto nasceu uma exposição intitulada "Rolling Exhibition" e que pode ser vista aqui.

domingo, 27 de julho de 2008

Os cartazes nórdicos


Quem tiver especial interesse por artes gráficas ou por cinema (ou por ambas artes) e preveja passar por Valência entre finais de Julho e princípios de Outubro, poderá visitar uma excelente exposição de cartazes de cinema concebidos por artistas suecos e dinamarqueses. Como já referi noutros posts do meu blog, actualmente o cartaz perdeu muita da importância iconográfica e promocional relativamente aos tempos clássicos do cinema. Um período no qual o design gráfico do cartaz relativo aos filmes detinha um poder visual incontornável. E para grandes filmes houve grandes artistas visuais e designers que contribuíram para a afirmação autónoma da arte gráfica.
Na exposição patente do Museu Valenciano da Ilustração e da Modernidade, podem ver-se cartazes originais feitos para filmes como "Metropolis", "West Side Story", "O Meu Tio", "Barry Lyndon", "Doutor Jivago", "Repulsa", entre dezenas de outros. Oportunidade para conhecer os trabalhos de artistas gráficos da escola nórdica europeia ao serviço do cinema.
PS - Já agora, aconselho a navegar no site do museu de Valência. Não só pelos conteúdos, mas também pela excelente apresentação gráfica (flash). Vindo de um museu sobre ilustração e design, nem outra coisa seria de esperar. Link para o museu.

sábado, 26 de julho de 2008

Discos que mudam uma vida - 22

Violent Femmes - "Violent Femmes" (1982)
Foi o primeiro disco que comprei. A emoção de colocar a agulha na rodela de vinil pela primeira vez gravou-se para sempre na memória. Claro que canções pujantes como "Add it Up", "To the Kill", "Gone Baby Gone" ou "Kiss Off" ajudaram a esse processo de gravação. Absolutamente memorável, portanto.

FMM Sines - a experiência de uma noite


Porque as férias obrigam a um comedimento mental, vou apenas comentar telegraficamente a noite de sexta-feira do Festival Músicas do Mundo de Sines:

- Ambiente geral muito agradável. Tempo extremamente ameno.
- Proliferação de várias tribos urbanas - com predomínio dos "modernos primitivos".
- Chegada ao castelo de Sines às 21h30 - 150 pessoas aproximadamente.
- 22h30 - recinto completamente lotado.
- 1º concerto da noite: o grupo do paquistanês Faiz Ali Faiz: música hipnótica, ritualista, espiritualidade Sufi, cantos de devoção profunda, danças na assistência. Brilhante.
- Intervalo de 15 minutos. Os horários dos espectáculos foram quase todos cumpridos (quase) à risca.
2º concerto da noite: KTU (Kimmo Pohjonen, Pat Mastelotto e Trey Gunn). Fúria demencial, sons abrasivos do acordeão e da guitarra de 10 cordas, ritmos em vertigem e ambiências demolidoras. Arrasador. O cantor JP Simões (Belle Chase Hotel) estava ao meu lado nos dois primeiro temas. Depois desapareceu (aspereza sonora a mais?).
3º concerto da noite: Cui Jian. Rock chinês, bons instrumentistas, canções medianas com temas fusionistas enérgicos (hip-hop, sons orientais, guitarras assanhadas). Dividiu a assistência.
- Passeio pela marginal: milhares de pessoas em circulação e convívio, dezenas de barracas de comes e bebes, venda de produtos (roupa, acessórios, instrumentos étnicos). E uns 5 ou 6 ecrãs gigantes estrategicamente colocados em várias artérias de Sines, transmitindo em tempo real os concertos (com excelente qualidade de som).
Em suma, ao fim de dez edições, este é um festival com identidade, carisma, excelente programação e organização.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

The Vicious Five e os videoclips

Não sei quem realizou este videoclip de uma das mais interessantes bandas rock da nova geração - The Vicious Five, mas o resultado é muito interessante. Aliás, os The Vicious Five, apesar da curta carreira, a banda portuguesa sempre manifestou um cuidado muito especial com a qualidade visual dos seus videoclips, como aconteceu neste magnífico tema de maior sucesso - "Bad Mirror" (videoclip realizado com base em animação digital por cima da captação da imagem real).
Com a edição do mais recente disco da banda de Joaquim Albergaria, "Sounds Like trouble", os The Vicious Five lançaram o videoclip "Coffee Helps", single de apresentação do mesmo álbum. Um tema com a habitual energia rock garage "seventies" e com uma realização, montagem e fotografia muito interessantes, a revelar influências visuais de Spike Jonze e Michel Gondry). Afinal, ainda há quem acredite na importância do videoclip na promoção musical e invista em propostas de nítida qualidade artística.

Christian Marclay - o visionário do gira-discos




Este é daqueles discos que fizeram história. Christian Marclay, compositor, artista visual, professor, tem atrás de si uma longa carreira de explorador sonoro e de colaborações com os músicos mais importantes do panorama musical vanguardista: Otomo Yoshihide, John Zorn, Elliott Sharp, Butch Morris, Erik M., Keiji Haino, músicos dos Sonic Youth, etc. Ainda jovem, interessou-se por correntes artísticas conotadas com a ousadia formal e estética, como o movimento Fluxus e a arte conceptual. Depois de um curto período no qual se entusiasmou com a energia subversiva do punk rock, enveredou de seguida pela experimentação partindo da exploração (material e sonora) do gira-discos ("turntable", termo que deu origem a uma prática musical, o "turntablism", que por sua vez, teve como antecessor a prática da música concreta). Toda a matéria sonora e musical é válida para Marclay - dos ruídos mais sujos aos géneros como o rock ou a clássica.
De resto, Christian Marclay é mesmo considerado o precursor da utilização do gira-discos enquanto instrumento musical não convencional. Não o utiliza no mesmo sentido em que o faz um DJ de hip-hop, mas antes como objecto performativo, de manipulação sonora através dos mais distintos procedimentos técnicos. Desde a década de 70 e, sobretudo, a de 80, Christian Marclay explorou múltiplas formas de manipular o som através dos gira-discos (e gramofones antigos) e dos discos de vinil. Todo o equipamento serviu de base para o seu trabalho de explorador sonoro: gira-discos com rotações estragadas ou alteradas, discos partidos ou literalmente colados, técnicas de scratch, de mistura, de alterações de pitch. Todas estas ferramentas (entre outras) serviram para conceber o álbum "More Encores.", lançado em 1988. Este disco é decisivo na história da música pela inovação com que Christian Marclay explora a música de outrem. Ou seja, todas as doze faixas têm como matéria musical composições de outros tantos músicos. Houve uma atitude apropriacionista, à luz do "ready made" de Duchamp, ao manipular os sons de compositores famosos. Aliás, "More Encores" é mesmo considerado o primeiro grande disco que recorre, exclusivamente, a samples analógicos de outros artistas. E que artistas: John Cage, Maria Callas, John Zorn, Jimi Hendrix, Jane Birkin, Chopin, Strauss, Fred Frith, entre outros. Christian Marclay manipula, literalmente, os discos destes músicos com algumas das técnicas já descritas para compor algo de completamente novo e esteticamente desafiante. O trabalho de Marclay é também conceptual, ao nível da abordagem dos pressupostos teóricos da linguagem musical. E é um disco que tem de ser ouvido em vinil (até porque tem como matéria prima de base o vinil), dado que o formato digital não revela todas as nuances tímbricas concebidas a pensar na rodela vinílica. É o próprio músico que defende: "interesso-me pelos sons que as pessoas não querem - como o som da agulha no disco riscado, o ruído da superfície do vinil, ou o scratch, por exemplo".
Em Junho de 2001 tive a feliz oportunidade de conhecer pessoalmente Christian Marclay. Foi na Bienal de Artes da Maia - "UrbanLab", dado que fui convidado para tocar na primeira parte do Christian Marclay DJ Trio (com Christian Marclay, Erik M. e Toshio Kashiwara). Foi particularmente interessante para mim ouvir o o próprio artista e músico a explicar os seus procedimentos criativos. Na altura, estava entusiasmado porque se encontrava a desenvolver uma instalação sonora com Lee Ranaldo (dos Sonic Youth). A impressão com que fiquei é que Marclay é um artista humilde, de fortes convicções artísticas e que tem consciência que o seu trabalho como "turntablist" foi pioneiro e fortemente influente na história da música do final do século XX.
Aconselho vivamente a ver este mini-documentário de 5 minutos sobre o trabalho de Christian Marclay:

Díptico - 19


João Bénard da Costa: "Muito lá de Casa" e "Os Filmes da Minha Vida"
(Assírio & Alvim)

O som de WALL-E


Estreia no próximo dia 14 de Agosto um dos mais aguardados filmes de animação digital de sempre: "WALL-E", da produtora Disney-Pixar. As críticas ao filme nos EUA têm sido estrondosamente positivas, ao ponto de ter entrado directamente para um impressionante 25º lugar na lista dos 250 melhores filmes de sempre do portal de cinema Internet Movie Database. A nota média final atribuída é de 8.8 em 10.
Andrew Stanton, o realizador de "WALL-E", afirmou que o robô do filme é inspirado no vagabundo Charlot de Charlie Chaplin, apresentando-se como "uma figura cruzada de Buster Keaton e do alienígena de "E.T. - O Extraterrestre". A história do filme é simples: um robôzinho movimenta-se num planeta Terra tornado inabitável pelo lixo e pela poluição, tentando sobreviver no meio do caos tecnológico. Tratando-se, assumidamente de um filme de ficção científica passado numa era pós-apocalíptica, era decisivo que o filme tivesse um grande trabalho ao nível do desenho de som e da sonoplastia. Daí que Stanton não hesitou ao convidar um dos maiores especialistas nesta matéria: Ben Burtt, criador das vozes sintetizadas e dos sons robotizados da saga "Star Wars" (como o mítico robô R2D2).
Burtt não só criou as vozes como todos os efeitos sonoros para os ambientes, veículos, aparelhos electrónicos, ruídos maquinais, etc. Sobre a criação da voz do personagem principal, disse Ben Burtt: "Como grande parte do filme é uma pantomima e não há qualquer diálogo real, muito do que se atribuirá ao personagem virá dos efeitos sonoros. Além disso, Wall-E tem voz, como os demais personagens robôs. O truque é criar uma voz que tenha o calor e a alma de um personagem humano, para que todas as emoções estejam lá e o público as possa relacionar e identificar de alguma forma." No intuito de conseguir um resultado eficaz e de qualidade, foi preciso um grande investimento no talento e na imaginação para inventar os sons e sincronizá-los com as imagens (alguns sons foram produzidos digitalmente, outros de forma absolutamente artesanal - gravando o som de um objecto para depois o relacionar com uma determinada cena ou personagem do filme).
É todo este processo minucioso, longo e criativo de edição de som para o filme "WALL-E" que Ben Burtt explica neste breve mas interessante vídeo de 2'40'' (dobragem em castelhano).