segunda-feira, 31 de março de 2008

Bach no século XXI

Cada artista ou criador é fruto do seu tempo. Estamos em 2008, em pleno século XXI. Os artistas de hoje reflectem, essencialmente, sobre o presente (e por vezes sobre o futuro). A música, o cinema, a literatura, e outras expressões artísticas só existem porque são concebidas e contextualizadas neste tempo que é o nosso. Vem esta espécie de axioma a propósito porque, volta e meia, dou comigo a pensar o que fariam artistas que já morreram e que viveram noutras épocas históricas se vivessem neste nosso tempo, nesta sociedade, neste contexto social, político e histórico, neste tempo com as referências tecnológicas e culturais contemporâneas.
Por outras palavras, é um exercício mental interessante pensar: que tipo de música faria hoje Miles Davis? Como se expressaria o cinema de Murnau ou Eisenstein? Sobre que temas escreveria Schopenhauer e Novalis? Que configuração teria hoje a teoria filosófica de Nietzsche? E Pollock desenvolveria hoje a mesma “action painting” que fazia nos anos 40 do século passado? Stravinsky aventurar-se-ia pela música electrónica? O que diriam Kafka ou Pessoa do mundo globalizado? Qual seria a posição de um Einstein ou de um Freud face à evolução da ciência actual? Como se manifestaria hoje a inigualável genialidade criativa de um Bach ou de um Mozart?
Enfim, questões que não passam de mera retórica mas que fazem sentido à luz da curiosidade do espírtio humano.

A guitarra portuguesa no laboratório



Fado e electrónica. A fusão que faltava explorar na música portuguesa. O Expresso revela um jovem guitarrista, Marco Miranda (28 anos), que toca guitarra portuguesa por influência do avô. A música electrónica, de facção mais arty e conceptual (as referências são os imprescindíveis Amon Tobin, Squarepusher, Sofa Surfers e Aphex Twin), é outra área de interesse de Marco. "Phado" é o seu primeiro trabalho, no qual explora os beats e os ambientes electrónicos misturados com a sonoridades características da guitarra portuguesa. Mas Marco Miranda não assina com o nome com que nasceu. M-Pex é o cognome artístico do projecto. A uma certa distância, este projecto lembra o do João Aguardela (ex-Sitiados, actualmente n' A Naifa), Megafone, que fazia o cruzamento entre a herança musical tradicional com a linguagem electrónica do drum'n'bass. Marco tem como inevitável referência Carlos Paredes e é com indisfarçável ousadia que diz que o objectivo do álbum "Phado" é "reposicionar a guitarra portuguesa no panorama musical, mostrar que não tem de estar só agarrada ao fado, criar uma ponte entre ontem e hoje, quebrar barreiras e clichés". A sua música é puramente instrumental, não estabelecendo relações estéticas com a linguagem do fado cantado. É a guitarra que centraliza o trabalho de abordagem criativa de Marco Miranda. A electrónica circula à volta, molda a matéria tímbrica das cordas e estabelece novas dinâmicas e sensibilidades. É como se a guitarra portuguesa fosse sujeita a experiências científico-sonoras de laboratório.
Para quem quiser aventurar-se a conhecer este interessante e promissor projecto, é favor entrar aqui.

domingo, 30 de março de 2008

Mike Patton - O génio volta a atacar



Um dos poucos génios criativos da música popular contemporânea (chamemos-lhe assim para simplificar), Mike Patton, não pára de surpreender. Não se contenta com a sua intensa e riquíssima actividade musical em múltiplos projectos (Tomahawk, Fantômas, Peeping Tom...), as suas colaborações com meio mundo da música e das artes, e com a a direcção da sua editora Ipecac Recordings. Desta vez, estreou nos EUA um filme com a banda sonora composta e produzida pelo ex-Faith No More. Chama-se "A Perfect Place", é uma média-metragem e tem realização do estreante Derrick Scocchera. O filme tem interessantes nuances de "film noir". Como é habitual em Mike Patton, este trabalho reflecte a veia fusionista do músico: rock, jazz, dub, electrónica, easy-listening, ambientalismo, experimentação diversa e ritmos imprevisíveis. Um assombro de banda sonora que, como se constata no trailer (mais abaixo), dá ao filme uma outra dimensão emocional.
O trailer aqui.

A madrugada alegre da TV


São perto das 3h da madrugada de Domingo (4h, pela hora nova): depois de colocar a leitura em dia, faço um zapping pelos canais portugueses. Pensei que àquela hora tardia estivesse a passar algum filme refundido sem interesse. Pior. Para meu espanto, a SIC a TVI transmitiam um programa, em directo (!), praticamente idêntico na forma e no conteúdo, com os títulos “Sempre a Somar” (TVI) e “Quando o Telefone Toca” (SIC). Pensei que o sono me tinha tolhido a visão e o discernimento mental. Após uma breve consulta à programação das televisões, percebi que o objectivo dos dois programas é o de ganhar uns Euros tentando adivinhar palavras cruzadas (ou algo parecido). No estúdio estão apresentadores jovens e cheios de dinamismo, como convém, quase que implorando para os telespectadores telefonarem. Afinal, era improvável que as donas de casa estivessem àquela hora a ver a televisão. Pergunto: a quem se destinam estes programas de uma indigência confrangedora e boçal? Em que pensam os directores de programas daquelas televisões privadas para concorrerem, desta forma tão primária, com programas que são puro telelixo e transmitidos a uma hora impensável? O share de audiência obtido com estes objectos televisivos valerá o investimento?

As escolhas de Mexia


Pedro Mexia, escritor e crítico literário que tanta inveja e cinismo despertou no meio por causa da sua nomeação para subdirector da Cinemateca Nacional, revelou à “Visão” os seus cinco filmes preferidos de sempre. Cinco títulos, cinco obras-primas. Quem conhece os escritos de Mexia no campo da crítica cinematográfica, sabe que não poderiam andar longe destas referências:

“Paris, Texas” de Wim Wenders
“Stalker” de Andrei Tarkovski
“O Carteirista” de Robert Bresson
“A Palavra” de Carl Dreyer
“O Joelho de Claire” de Eric Rohmer

A SIC e a verdade dos factos do youtube

O caso da aluna que agrediu a professora por causa do telemóvel está a atingir foros de alucinação e irresponsabilidade. A SIC divulgou este vídeo, no qual se vê um professor a espatifar um telemóvel de um aluno enquanto continua a dar a aula como se nada tivesse acontecido. Este vídeo é claramente falso, uma encenação primária só para chamar a atenção dos alunos para a não utilização do telemóvel na sala de aula. No próprio youtube confirma-se que a cena não é real. De resto, esta cena simulada na sala de aula foi feita também noutros países. Será que os jornalistas da SIC aceitam como "real" toda e qualquer informação vídeo que surja na internet e no youtube? Ora, como é possível que os jornalistas da SIC, presumivelmente sérios e competentes, possam ter induzido em erro os espectadores mais incautos? Se foi por ignorância (difícil de acreditar dado que bastava uma simples pesquisa para desmascarar o feito), é grave; se foi intencional (o que denota manipulação da informação), é gravíssimo. Mais absurdo ainda: após a transmissão do vídeo, houve um debate em estúdio com um psicólogo e o ex-bastonário da Ordem dos Advogados para a inevitável escalpelização do pretenso problema. Inacreditável. A SIC precisa de rever dramaticamente a sua linha editorial e os seus critérios jornalísticos para mascarar, um bocadinho melhor, que se rege pelo lado sensacionalista da notícia.

sábado, 29 de março de 2008

Devotchka

Já ouvi o último álbum dos americanos Devotchka, com o interessante título "A Mad and Faithfull Telling". Grandes canções. Folk, western, mariachi, bolero, Grécia, Balcãs, rock, sopros, violinos, guitarras, ritmos. Tudo ao molho. Felizmente. Não praticam a loucura dos Gogol Bordello, mas por vezes andam lá perto. Pode-se ouvir aqui.

A morte pode ser bela

Este é um dos finais de filme mais desoladores e belos dos últimos anos: "O Tempo Que Resta" (2006), do cineasta francês François Ozon (talvez o mais interessante realizador francês da nova geração). Vítima de uma doença terminal aos 30 anos, o jovem Romain decide refugiar-se de tudo e de todos e viver os seus últimos momentos de existência numa praia. A forma como Ozon encena estes últimos 7 minutos de filme são de um sublime despojamento e paradoxal experiência. Romain, o outrora famoso fotógrafo da moda, sabe que a aproximação da morte é iminente e, querendo enfrentar esse momento final na mais completa solidão, escolhe para morrer uma praia cheia de famílias e crianças felizes. Romain aprecia e saboreia os insignificantes instantes de vida revelando um olhar já triste e derrotado. Deita-se na toalha de frente para o sol para a derradeira despedida e com um subtil sorriso estampado no rosto. A praia fica deserta. Ouve-se a música elegíaca de Arvo Pärt. François Ozon filma aquele corpo já morto, no deserto em que se tornou aquela praia, como se estivesse a renascer. Os últimos resquícios de sol parecem reflectir-se no rosto inerte de Romain. E o último plano do pôr-do-sol é já a morte a resgatar a alma de Romain. Visconti não teria desdenhado este final de filme (vide " Morte em Veneza"). Belo, belo.

sexta-feira, 28 de março de 2008

100 melhores

É uma lista como qualquer outra - subjectiva: os melhores 100 álbuns de sempre divididos por décadas. Rock on!

Jarboe - é impossível explodir o vazio


Houve um tempo em que Nova Iorque era o centro nevrálgico da actividade musical dita underground. Na era pré e pós No-Wave, no final dos anos 70, a emergência de novas propostas, arriscadas e nervosas, transformou-se num fluxo prolífero de renovadas linguagens estéticas. Cruzaram-se múltiplas sensibilidades musicais e abriram-se horizontes imprevisíveis no espectro da música rock (e não só). Desse caldeirão de novas referências, podemos referenciar músicos e bandas como Glenn Branca, Lydia Lunch, Foetus, Sonic Youth, Teenage Jesus and The Jerks e, inevitavelmente, os Swans. Michael Gira, o líder desta banda marcante nas décadas de 80 e 90, soube como poucos traduzir em sons a efervescência existencial (sexo, morte, religião, decadência, podridão eram temas recorrentes) em perturbantes e negros registos como “Cop” (1984), “Greed” (1986) ou o fundamental “White Light Form The Mouth of Infinity” (1991). Como complemento vocal (e instrumental, nos teclados), havia nos Swans um discreto mas influente elemento: Jarboe. A sua voz, ora melodiosa, ora irascível, tornou-se numa referência absoluta no panorama das vocalistas femininas do espectro rock e experimental, onde pontuam também os nomes incontornáveis de Diamanda Galás e Lydia Lunch.Ainda na regência dos Swans, em finais dos anos 80, surge um dos mais interessantes projectos paralelos à actividade do grupo, os Skin, fruto da cumplicidade entre Michael Gira e Jarboe. Desta efémera aliança surgiram dois excelentes álbuns - “Blood, Women, Roses” de 1987, e “Shame, Humilty, Revenge” de 1988. Depois do fim da carreira seminal dos Swans, Jarboe trilhou um percurso musical próprio, feito de colaborações diversas e de discos cada vez mais pessoais e intimistas, não deixando de lado a faceta mais negra e experimental que sempre a caracterizou. Por seu turno, a veia criativa de Jarboe expandiu-se para novos territórios de exploração e novas congeminações musicais. Álbuns a solo como “Beautiful People Ltd” (1993) e “Sacrificial Cake” (1995), este último editado pela Alternative Tentacles, confirmaram Jarboe como uma intrépida exploradora de emoções e pesquisadora de soluções sonoras surpreendentes (nomeadamente, com a introdução de samples electrónicos).
Em 1998,
“Anhedoniac” vê a luz do dia. Registo duro e directo, no qual Jarboe, como é seu apanágio, transgride e subverte todos os limites: estilhaça qualquer vislumbre de formato de canção, alterna melodias encantatórias com devaneios guturais, constrói labirínticos puzzles instrumentais e abre a porta da colaboração a gente da electrónica experimental como os Pan Sonic. O disco “Anhedoniac” foi posteriormente reeditado pela editora Atavistic, num trabalho de remasterização, novo design gráfico e com “bonus tracks”. Sob a máxima “You Can’t Explode What’s Empty”, Jarboe expõe os males do mundo numa descarnada entrega emocional. Musicalmente, a ex-Swans vagueia por entre músicas lamurientas, densas e repletas de insinuações inquietantes sobre a condição humana no mundo moderno. Jarboe cruza texturas aparentemente desconexas, cria ambientes soturnos e alegóricos, provoca e desconcerta o ouvinte. No fundo, tal e qual como fazem todos os grandes artistas.

Gostava de lá ter estado

Portishead, live in Porto 26/03/08

quinta-feira, 27 de março de 2008

A escola em ebulição


O influente crítico de cinema francês André Bazin dizia que há dois tipos de pessoas: as que acreditam na imagem e as que acreditam na realidade. A imagem é a reprodução da realidade mediada e manipulada por determinado sistema de comunicação (cinema, vídeo, televisão, fotografia...); a realidade é a realidade real, empírica e objectiva. Vem esta asserção a propósito do caso da aluna que agrediu a professora na escola Carolina Michaelis. Nem vou comentar a forma vampírica como os media se têm debruçado sobre o assunto - há precisamente uma semana que os telejornais abrem obsessivamente com o caso. Claro que é inqualificável o acto da aluna, como do resto da turma (não só quem filmou). Um acto de humilhação da professora que os jovens alunos julgam ter sido de heroicidade, precisamente, porque se acharam impunes face às acções cobardes e indisciplinadas que praticaram. Já não me parece que seja considerada punição suficiente a mera transferência de escola da aluna em causa. Como bem disse Miguel Sousa Tavares (num raro comentário acertado que lhe ouvi dizer sobre educação), a aluna deveria ser punida com trabalho comunitário, dado que se a aluna é indisciplinada, vai continuar a sê-lo noutra escola qualquer.

Voltando à ideia inicial, o que me incomoda como professor é que parece que só existem casos de violência quando estes são transmitidos pela televisão. As imagens passam na televisão? Então temos de acreditar no empolamento do caso, como se este fosse o pior caso de indisciplina alguma vez cometido. Ora, quem vive diariamente numa escola (professores, alunos, auxiliares da educação), sabe que este caso da Carolina Michaelis é um caso grave, mas que é apenas a ponta do icebergue do fenómeno. A tal realidade supera a reprodução em imagens. Este caso nunca teria tido a repercussão na opinião pública caso não tivesse sido mediado pela câmara de um telemóvel. E este simples facto outorga uma outra dimensão mediática ao caso. Desmesurada, até. É já o próprio Procurador Geral da República que diz que as "imagens comprovam a a gravidade da situação". Será que o Procurador se preocupa desta forma veemente quando lê uma notícia no jornal sobre "bullying"? Ou quando recebe queixas de professores relatando casos ainda mais graves? Ou quando lê estudos sobre o crescente fenómeno da violência nas escolas públicas? Claro que não, porque esses meios não têm o poder que as imagens têm. E há que dar prioridade aos factos que as televisões documetam, o resto é secundário. A agenda política dos responsáveis é ditada pela ditadura da comunicação social de massas e das circunstâncias do espectáculo mediático (aposto como na próxima segunda-feira, no recomeço das aulas, haverá um batalhão de repórteres à porta da escola à espera da professora vítima deste caso). Os estudantes de jornalismo e comunicação social sabem do que falo - Ignacio Ramonet tem livros muito pertinentes sobre o fenómeno (basta citar o livro "A Tirania da Comunicação"). Apesar de não ser regra (até ver), a verdade é que todos os dias há situações graves de indisciplina nas salas de aula deste país. Todos os dias há reuniões de professores por causa de processos disciplinares, todos os dias há professores que vão para a sala de aula com medo (psicológico e físico) dos alunos e das situações que estes provocam para destabilizar a aula, todos os dias há atitudes de provocação, de humilhação dos professores, todos os dias há actos de violência (encobertos ou não) e de boicote às aulas. E tudo isto cria um clima de insegurança para a comunidade escolar, de instabilidade para o sucesso do processo ensino-aprendizagem. A reportagem da SIC e da revista Sábado comprovam isso. É evidente que é muito diferente o ambiente numa escola da Damaia ou de Bragança. As realidades sociais são completamente distintas. Mas eu passei por escolas da chamada província e testemunhei sérios e perturbantes casos de violência e insubordinação. Essa é a realidade que importa ter em conta, não apenas as imagens televisivas que daqui a um mês ninguém se lembra. Bem pode a Ministra vir dizer que este é um caso isolado, que não é. Só quem trabalha diariamente numa escola conhece as tremendas dificuldades de trabalho para os docentes.

Há muitos anos que especialistas da educação (nacionais e internacionais) e estudos académicos chamam a atenção para o facto que um dos principais motivos para o insucesso e abandono escolar é a indisciplina dos alunos (e tudo o que esta acarreta). Nos últimos 20 anos, ela tem crescido de forma assustadora. Professores que hoje se encontram à beira da reforma, com 30 e mais anos de serviço docente, referem à saciedade que o panorama na sala de aula se alterou brutalmente desde as duas últimas décadas a esta parte: o estatuto do professor foi perdendo o carácter de autoridade e hoje os alunos não olham para ele como o mesmo respeito que antigamente. A figura social do professor foi sendo desvalorizada ao longo dos anos, e o aluno foi ganhando formas de impunidade e de desresponsabilização. Os sucessivos ministros da educação têm optado por uma via excessivamente burocrática e de facilitismo no sentido de fazer subir, à força, as estatísticas do sucesso escolar. Despoletar um processo disciplinar é enfrentar uma teia burocrática quase kafkiana. As famílias, principais responsáveis pela educação dos seus educandos (ainda que essa responsabilidade seja sempre sacudida para os professores), descartam-se do acto de educar e de incutir valores em casa. Por outro lado, a extensão da escolaridade obrigatória, a heterogeneidade da população docente (também há professores incompententes e sem formação), os graves problemas que atravessa a vida social, condicionam decisivamente o funcionamento do microcosmo escolar e exigem a reavaliação do papel do professor.

Face a tudo isto, não admira o nível de profunda desmotivação profissional dos professores (já nem falo do tema da avaliação ou da progressão na carreira). O Ministério da Educação em particular, e a sociedade em geral, têm de repensar o sistema de ensino, repensar o modelo de educação e desenvolver mecanismos eficientes para fazer face ao problema da indisciplina e da violência na escola. Não só para remediar mas sobretudo para prevenir. Caso contrário, a pergunta que se impõe é: que sociedade e que cidadãos estamos nós a criar?

A arte de Rauschenberg x 120 mil


120 mil. 120 mil pessoas visitaram a exposição de Robert Rauschenberg no Museu da Fundação Serralves (termina no próximo Domingo). Depois da retrospectiva de Paula Rego, esta foi a segunda exposição com maior número de visitantes. E trata-se de um número que não pode deixar de impressionar. Apesar de ter sido um ícone da arte Pop (com Warhol), Rauschenberg trilhou posteriormente um percurso artístico longe dessas referências estéticas balizadas. Apesar dos números esclarecedores, ainda há quem pense que não existe público para a arte contemporânea e que esta é destinada a um grupo restrito de intelectuais. A Fundação Serralves continua em grande na divulgação da arte contemporânea e o resultado desse esforço revela-se no sucesso crítico da exposição e na receptividade do público.

A capa tem importância


Cenário: Fnac. Secção: filmes em DVD. Um grupo de raparigas adolescentes comenta em voz alta as preferências cinematográficas. A páginas tantas, assisto a este diálogo:

- "Que filme é este?"
- "Promessas Perigosas - não conheço"
- "Ah, mas não deve valer nada!"
- "Como é que sabes?"
- "Pela capa. Eu vejo a qualidade dos filmes pela capa".

Sem petição


Não foi necessária uma petição nacional para trazer esta cantora/compositora/intérprete a Portugal: Suzanne Vega ao vivo no Teatro Municipal da Guarda, dia 9 de Julho de 2008.

A arte de escrever para cinema


Há uns dois anos, a Associação de Argumentistas Norte-americanos elegeu os 101 Melhores Argumentos de sempre para cinema. A escolha fez-se entre 1400 mil filmes.

Eis a lista final dos 10 melhores argumentos de sempre:

1 - "Casablanca", Argumento de J. & Philip G. Epstein e Howard Koch
2 - "O Padrinho", Argumento de Mario Puzo e Francis F. Coppola.
3 - "Chinatown", Argumento de Robert Towne
4 - "O mundo a seus pés", Argumento de Mankiewicz e Orson Welles
5 - "Eva", Argumento de Joseph L. Mankiewicz
6 - "Annie Hall", Argumento de Woody Allen e Marshall Brickman
7 - "O Crepúsculo dos Deuses", Argumento de C. Brackett e Billy Wilder
8 - "Escândalo na Televisão", Argumento de Paddy Chayefsky
9 - "Quanto mais Quente Melhor", Argumento de Billy Wilder
10 - "O Padrinho, Parte II", Argumento de Francis Coppola e Mario Puzo

A lista final inclui sobretudo clássicos mas também filmes mais recentes como «Os Suspeitos do Costume» de Brian Singer, lado a lado com «Os Condenados de Shawshank», de Frank Darabont. Woody Allen aparece na lista com, nada mais nada menos, do que com quatro títulos - «Annie Hall» (1977), «Manhattan» (1979), «Crimes e Escapadelas» (1989) e «Ana e as suas Irmãs» (1986). O segundo mais citado é Charlie Kaufman, por «Being John Malkovich» (1999), «Inadaptado» (2002) e «O Despertar da Mente» (2004).

Não deixa de ser espantoso - mas totalmente compreensível - que Francis F. Coppola esteja duas vezes representado no top 10 pela saga "O Padrinho". E que Woody Allen seja citado com quatro títulos. E repare-se que não há nenhum filme na lista dos 10 mais que seja posterior à década de 80. Quererá dizer alguma coisa?
Há uns anos, ao assistir a uma conferência proferida pelo realizador português António Pedro Vasconcelos sobre, precisamente, escrita para cinema, perguntei-lhe no final se achava mesmo que o argumento de "Casablanca" era o melhor jamais escrito. Resposta: "sem dúvida". E já agora, que tal ler o argumento original do filme de Michael Curtiz?!

Casablanca - Hinos em guerra

Poucas vezes um hino nacional (aliás, dois) terá tido tanto impacto emocional e representação simbólica como na célebre sequência do filme "Casablanca" (1942) de Michael Curtiz. Filme mítico realizado no auge criativo de Hollywood, "Casablanca" é uma obra repleta de momentos únicos que se incluem na memória cinéfila de gerações: Bogart e Bergman como o casal apaixonado mas separado por forças maiores; as frases "teremos sempre Paris", "Play As Times Goes By!", "isto é o início de uma bela amizade"; o ambiente do café Rick's... Mas há um momento que supera todos os outros que se torna arrebatador e cheio de simbolismo político e ideológico: a cena em que os soldados alemães cantam o hino nacional da Alemanha e a subsequente reacção do resistente Victor Laszlo (Paul Henrid) a obrigar a orquestra residente a interpretar eloquentemente "A Marselhesa". Aquela disputa musical entre franceses e alemães é de uma energia incomparável. Nota-se no rosto dos personagens (sobretudo Ingrid Bergman) a enorme tensão emocional, reflecte-se naquelas vozes uma raiva incontida contra a Guerra e a ocupação Nazi. A pujança musical (e da inerente letra) do hino francês acaba por destronar os oficiais alemães, numa simbólica e passageira vitória moral. A música como arma de guerra. Memorável.

quarta-feira, 26 de março de 2008

A corda do crime


Dois jovens intelectuais abastados encontram-se numa festa num apartamento e assassinam a sangue frio (com uma corda) um terceiro amigo apenas para sentir a adrenalina do acto e por acreditarem na supremacia moral de uns homens sobre os outros. Escondem o corpo num baú onde irá ser servido o jantar à família e à noiva do morto. Entretanto, surge o professor dos dois estudantes (James Stewart) que, suspeitando do terrível acto dos seus alunos, começa a deslindar o perverso jogo que envolveu a morte de um homem inocente. O que queriam os assassinos, afinal, provar com esta morte sem aparente motivo?
“A Corda” (1948) foi o mais ambicioso e desafiante filme da carreira de Alfred Hitchcock (e o seu primeiro filme a cores): foi filmado como se se tratasse de uma peça de teatro, num cenário único, em diversos movimentos de câmara contínuos de 10 minutos cada (todo o filme é filmado com se de uma longuíssimo travelling se tratasse). Este prodígio técnico resultou num filme único na História do Cinema. O clima de tensão progressiva do filme do mestre do suspense não deixa respirar o espectador, mergulhando-o num ambiente claustrofóbico e psicologicamente perturbante. A interpretação de James Stewart é soberba, assim como o argumento e a realização estilizada do cineasta inglês. "A Corda", apesar de ser um filme menos conhecido e comentado da sua rica filmografia, é um caso de estudo em todas as escolas de de cinema. O realizador russo Sokurov seguiu-lhe os passos quando filmou, com câmara digital, o filme "A Arca Russa" apenas com um único plano-sequência.

O jazz também mora aqui


Mr. Bungle, Fantômas, Secret Chiefs 3, Junk Genius, John Zorn. O que têm estas bandas e músicos em comum? Não, não é Mike Patton (mas até podia ser). É antes Trevor Dunn, eminente baixista e, à semelhança de Patton, igualmente criador visionário e destemido. Ou seja, um músico que soube distanciar-se da figura tutelar do mestre com o fito de desbravar um caminho artístico próprio.
Para além de todas as bandas mencionadas das quais Trevor Dunn faz (ou fez) parte, há ainda a salientar a colaboração com muitos outros músicos provenientes de distintas geografias musicais. Ou seja, este imprevisível baixista nascido em São Francisco comunga da mesma veia artística de Mike Patton: o gosto pela experimentação musical, o prazer pela descoberta de novos caminhos estéticos, a destreza na exploração de coordenadas musicais tão díspares quanto o hardcore, o rock de fusão, o avantgarde ou o jazz. É o próprio a assumir a dificuldade de caracterizar a sua música, explicando que toca apenas o que gosta, sem sentir o ímpeto (por vezes desconfortável) de recorrer a compartimentações estilísticas auto-impostas. Enquanto baixista dos Mr. Bungle, ou mais dos Fantômas, Trevor Dunn já destilou malhas de baixo em quase todos os cenários musicais possíveis e imaginários. Faltava o jazz. E foi a pensar na exploração jazzística que Trevor Dunn encetou o projecto chamado Trevor Dunn’s Trio-Convulsant em 1999, editando o seu primeiro registo de originais pela etiqueta Buzz Records, intitulado “Debutantes & Centipedes”. Entretanto, os dois músicos que o acompanhavam neste projecto saíram (Adam Levy e Kenny Wollesen), dando lugar a outros dois: Ches Smith na bateria (membro dos Theory of Ruin e ex-Mr. Bungle) e - surpresa! – uma guitarrista com formação de jazz, Mary Halvorson. Dunn, por seu turno, deixa de lado o baixo eléctrico que tanto o caracteriza e explora nesta formação o contrabaixo acústico, qual Charles Mingus reencarnado.
Trevor Dunn’s Trio-Convulsant é manifestamente um trio de jazz, com espaço para a experimentação de fórmulas composicionais tipificadas, clara e objectivamente, com a linguagem jazz (free-jazz e improvisação, sobretudo). Mas tratando-se de um músico irrequieto como Trevor Dunn, seria de esperar mais do que jazz: e assim há também espaço para desvarios rock, em óbvia referência aos Mr. Bungle de boa memória. “Sister Phantom Owl Fish”, editado pela Ipecac Recordings em 2004, é um disco com temas instrumentais de cariz eminentemente jazzístico, mas com rasgados traços rock a obliterar essa fervura jazz. Não é fusão de género que aqui está em causa, é antes a conjugação de linguagens musicais aparentemente antagónicas. E neste contexto, a guitarrista Mary Halvorson retira, de certo modo, o protagonismo a Trevor Dunn (apesar deste ter um tema a solo e de a maior parte das composições serem da sua autoria), saltitando por entre rasgados riffs distorcidos com lânguidos solos de pura improvisação jazz. Um disco que prova que Trevor Dunn tem ideias próprias e é detentor de uma abundante criatividade. Mais importante ainda, prova que não se quer acomodar à sombra da reconhecida genialidade de Mike Patton, trilhando um percurso musical tão singular quanto possível. Depois deste disco, Dunn já lançou mais três outras obras em parceria com músicos de reconhecida notoriedade: Shelley Burgon e Brett Larner.

Educação cívica

Educação sexual

terça-feira, 25 de março de 2008

Pós-Humano


A caminho de uma nova condição de (pós)humano.
O futuro está traçado.

Debussy - 90 anos depois


Hoje comemoram-se 90 anos da morte de uma dos grandes inovadores da música do fim do século XIX e princípio do século XX: Claude Debussy. Que eu tenha reparado, nem uma linha foi publicada nas páginas de cultura dos jornais diários sobre a efeméride. Debussy abriu as portas da modernidade musical e das revoluções estéticas que irromperam a partir da primeira Guerra Mundial: primeiro com o Impressionismo (movimento de que fez parte mas que sempre rejeitou), depois com o contributo de Stravinsky e desembocou na vanguarda de compositores como Edgar Varèse, Charles Ives ou John Cage. Debussy renovou a linguagem harmónica, criou novas sucessões de acordes, compôs linhas melódicas de grande sensualidade e explorou novas possibilidades rítmicas. Bastaram duas composições para que o nome de Debussy fosse inscrito nos manuais da Historia da Música: “Pelléas et Melisande” e o sublime poema sinfónico “Prélude à L'après-Midi d'un Faune”, baseado num poema de Mallarmé e transposto para bailado por Vaslav Nijinski em 1912.
90 anos depois, a música de Debussy permanece actual e moderna.

Admiração & respeito - 14


Dalai Lama- Líder espiritual do Tibete

Elfman vs. Manson

E a propósito do post sobre "O Estranho Mundo de Jack" em 3-D, não resisto a mostrar a versão que Marilyn Manson fez do tema de abertura do filme, "This is Halloween". Sou tudo menos admirador da obra de Manson, mas acabo por reconhecer que o seu universo gótico e barroco se coaduna muito bem com o espírito do filme. De resto, foi o próprio Danny Elfman quem propôs à Disney o nome de Manson para fazer a versão do tema. Claro que a Disney levou algum tempo a concordar. Mais propriamente... 5 anos (Elfman explica o processo aqui)!

Jack Skellington em 3-D


Como cinéfilo vi este filme umas 10 vezes. Como professor, umas 50. Projectei-o nas minhas aulas dezenas de vezes, especialmente nas épocas de Natal ou de comemorações do Halloween. Falava aos meus alunos sobre o papel da música na acção dramática, cantávamos as canções e víamos o filme deliciados. Eram momentos de soberba descoberta audiovisual para a maioria dos alunos, encantados com o maravilhoso universo do filme de animação "stop motion" de Tim Burton (e Henry Selick, diga-se em abono da verdade). "Nightmare Before Christmas" ("O Estranho Mundo de Jack", 1993) é um dos mais perfeitos e fascinantes filmes de animação em registo de longa metragem jamais realizados. Não se trata apenas da genialidade de como os personagens, os cenários e a história de desenvolvem e se entrecruzam. A fusão dos universos aparentemente antagónicos - imaginário das bruxas e das sombras com o do Pai Natal e das cores - é fruto de uma criatividade visual ímpar. Depois há a música. E a música é daqueles objectos para toda uma vida. Danny Elfman, de quem sou fã absoluto desde os tempos da sua antiga banda punk-new wave Oingo Boingo, nos anos 80, compôs algumas das mais belas e emocionantes canções para cinema dos últimos 20 anos. Desde o brilhante genérico inicial, com a canção "This is Halloween", passando pelo espanto de Jack Skellington com o maravilhoso mundo do Natal com "What's This" (cantado pelo próprio Elfman), pela estonteante "Oogie Boogies's Song", até ao hilariante "Kidnap the Sandy Claws", Danny Elfman conseguiu a alcançar a perfeição composicional raramente conseguida por outros músicos. Elfman aprendeu todos os ensinamentos de compositores como Kurt Weill, Bernard Herrmann e Henry Mancini. Com "A Noiva Cadáver" voltou a explorar o filão, mas apesar da excelência das composições, não igualou a mestria da música para Jack Skellington. A música funciona neste filme de Tim Burton, como um motor narrativo e dramático de grande fulgor e impacto emocional. E tudo isto vem a propósito da estreia de "O Estranho Mundo de Jack" em versão 3-D nas salas de cinema portuguesas para o próximo dia 24 de Abril. De certeza que esta tecnologia proporcionará uma nova e rica experiência audiovisual.
Imperdível.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Diamanda Galás - a Diva negra


Diamanda Galás actua a 6 de Maio no Theatro Circo de Braga, a 8 na Casa da Música e a 9 na Aula Magna em Lisboa para apresentar o novo álbum "Guilty Guilty Guilty". A propóstio desta artista, escrevi para a revista "Mondo Bizare" um artigo publicado no nº18:

DIAMANDA GALÁS - Combater o Mal

Num mundo conspurcado pelo Mal e polvilhado por interesses demoníacos, cujas manifestações se revelam através da Sida, da morte, do sofrimento ou de genocídios, Diamanda Galás representa uma tentativa de cura libertadora. Uma cura que expurga esses males, uma cura que se materializa numa das vozes mais feéricas e ameaçadoras que alguma vez se ouviu no panorama da música contemporânea.
Numa espécie de reencarnação negra de Maria Callas, num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, Galás faz uso da sua incrível extensão vocal (quatro oitavas) para, simultaneamente, propalar os pecados do homem e denunciar o dogmatismo religioso (assim como a insidiosa moral cristã). Nascida em San Diego, sob o sol escaldante da Califórnia, esta descendente de pais gregos ortodoxos revelou-se, nos últimos 20 anos, como a porta-voz de uma mensagem apocalíptica sobre as múltiplas faces da angústia existencial do homem. Com formação musical clássica (é pianista de eleição), fluente em várias línguas, detentora de uma cultura universalista, imbuída da poesia maldita de Baudelaire, fascinada pelo lado espectral da vida humana e recorrendo a textos bíblicos e de outras culturas não ocidentais, Diamanda Galás percorreu nos seus (até agora) 14 álbuns, um caminho tortuoso de purificação espiritual, de penitência árdua e sem concessões, rumo à catarse suprema. Galás é provocadora, insubmissa, politicamente incorrecta, radical (na forma e no conteúdo), experimentalista, e nisso tem semelhanças com Meira Asher ou Lydia Lunch. Mas Galás vai muito mais além, como ficou demonstrado em álbuns demenciais como “Litanies Of Satan” (1982), “Divine Punishment” (1986) ou “Plague Mass” (1991). Bastariam estes três tremendos testamentos sonoros para perpetuar o nome de Galás nos anais da história da música, fruto da sua voz visceral capaz de exorcizar demónios e da sua criatividade pianística que está tão à vontade no blues como nos devaneios libertinos.
Após o seu último registo ao vivo, “Malediction And Prayer”, datado de 1998, Diamanda Galás lançou edições sucessivas: “La Serpenta Canta”, editado no final de 2003, e “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, lançado em Janeiro de 2004, ambos discos duplos, a solo e ao vivo. Dois trabalhos que, apesar de distintos esteticamente, acabam por se complementar. “La Serpenta Canta” é um registo gravado ao vivo em Adelaide, Austrália, em 2001; trata-se, muito prosaicamente, de um recital de canções em que Diamanda Galás interpreta, acompanhada apenas pelo piano, standards de canções blues e soul de autores populares como Hank Williams, Ornette Coleman, Screamin’ Jay Hawkins ou The Supremes. Neste disco, Galás consegue a proeza de reinventar o espírito soul-jazz de temas clássicos como “My World Is Empty Without You”, “I Put a Spell On You” ou “Baby’s Insane”. A cantora, respeitando as formas musicais dos originais, reorganiza-as harmonicamente, dando-lhes uma outra frescura tímbrica e, em suma, outra realidade sonora. “La Serpenta Canta” resulta, deste modo, como um dos trabalhos mais acessíveis e luminosos da autora de “Vena Cava”, onde até o formato canção é minimamente reverenciado.
Com “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, a história é já outra, bem mais complexa, lírica e musicalmente. Este trabalho é remanescente da obra musical de Galás referente aos anos 80, isto é, à sua fase mais experimental e vocacionada para a exploração de uma temática específica. Da mesma forma que “Plague Mass” versava sobre as vítimas da Sida, este disco evoca o genocídio arménio e grego perpetrado pelo exército turco entre 1914 e 1923. Ou seja, novamente a veiculação de uma mensagem política incontestavelmente forte. Diamanda Galás socorre-se de poemas e textos históricos arménios, gregos, espanhóis e hebraicos sobre o tema, colocando o dedo na ferida aberta que constituem, ainda hoje, estas atrocidades cometidas há um século atrás. A cantora e pianista aborda o assunto sem constrangimentos e pudores, salientando o sofrimento e a morte que tais acontecimentos representaram para todo um povo massacrado.
Musicalmente, “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, caracteriza-se por ser o regresso às sonoridades ríspidas e cáusticas do início da carreira de Galás, misturando melodias religiosas com a voz poderosa e extrema, despoletando as emoções mais primárias de quem ouve tais cerimoniais de morte e estertor. De resto, seria apenas suficiente referenciar o longo tema de abertura, “The Dance” (34 minutos cantados a cappella) para impressionar pela recusa de concessões estéticas e artísticas. É verdade que a voz da diva negra já não atemoriza como nos primeiros trabalhos dos anos 80, mas é um facto que estes dois trabalhos só vêm provar, caso ainda fosse necessário, que a honestidade artística e a coerência criativa de Diamanda Galás vão muito para além da realidade musical de hoje.
No fundo, são exigentes testamentos musicais que servem para agraciar a alma de quem morreu. Como por exemplo a alma do irmão da cantora que morreu de Sida e, em última instância, a alma de todos nós que vamos morrer um dia.

A música do enterro


A notícia é do Público online. O título menciona: “Sri Lanka: Arthur C. Clarke enterrado ao som de "2001 Odisseia no Espaço". A dúvida sobressalta: Arthur C. Clarke foi enterrado ao som de “2001 Odisseia no Espaço”? Mas qual som? Para além de ser vago falar ao "som da banda sonora de um filme", não informa qual a composição utilizada, em que contexto, uma vez que a banda sonora do filme homónimo de Kubrick é um conjunto de composições muito diferentes – Strauss e Ligeti. Seria ao som da valsa de Strauss? Ou da peça "Lux Aeterna" de Ligeti? Como é comentado (e bem) no site do jornal, não faz sentido noticiar um título destes.

Discos que mudam uma vida - 14


Terry Riley - "A Rainbow in Curved Air" (1967)

Serial killer no livro e no cinema


A Dom Quixote acaba de lançar um romance com base na vida do famoso serial killer russo Andrei Chikatilo (mais conhecido como o "carniceiro de Rostov", na imagem). Este sinistro personagem foi acusado de matar mais de 50 mulheres e crianças. Foi condenado à morte em 1994. O livro, com o título "A Criança nº 44", é da autoria do jornalista e argumentista Tom Rob Smith. É uma obra que irei certamente ler porque me interessa a temática dos assassinos em série. Não por curiosidade mórbida em relação aos actos dantescos praticados, mas por querer perceber o lado negro da mente humana. Há inúmeros estudos (documentados em outros tantos livros) que tentam explicar, à luz da psiquiatria, da psicologia e da criminologia, o fenómeno dos serial killers. Ao longo do século XX houve muitos casos, sendo que 90% surgiram nos EUA. Ted Bundy, Ed Gein, Jeffrey Dahmer, Henry Lee Lucas, Charles Manson e John Wayne Gacy são apenas alguns dos assassinos em série mais conhecidos da história criminal da América. Todos estes casos foram retratados em filme (uns melhores do que outros). Ed Gein, por exempo, inspirou "Psycho" e "O Silêncio dos Inocentes". Já aqui tinha falado sobre este livro que aborda brilhantemente as patologias mentais no cinema.
E por falar em filme, este livro de Tom Rob Smith vai ser adaptado para cinema por Ridley Scott. E quem vai interpretar o tenebroso papel do "carniceiro de Rostov"? Nada mais nada menos do que... Mel Gibson!

sábado, 22 de março de 2008

Alphaville - o olhar cru de Godard


É um dos mais espantosos filmes de Jean-Luc Godard: "Alphaville" (1965). E é também um dos mais estudados na área da comunicação, da semântica e da teoria estética (Deleuze), dada a complexidade da obra. Com interpretações fabulosas de Eddie Constantine e Anna Karina, "Alphaville" é uma espécie de filme policial/Ficção Científica de série B futurista, com abordagens muito cruas à ideia de repressão do Estado, de controlo das massas face à liberdade individual

Pode acontecer a qualquer um(a)


Noite de 26 de Março de 2008. Coliseu do Porto. O público que enche o espaço vibra à espera da subida ao palco dos Portishead. Por entre a penumbra, entram Geoff Barrow e Adrian Utley. Geoff pega no microfone e diz: "lamentamos mas temos de adiar o concerto porque a Beth Gibbons ficou em Bristol por causa de uma laringite aguda". O povo fica atónito e sai do Coliseu em prantos, uns mais audíveis do que outros. As televisões captam o momento. Os fãs dos Tokio Hotel riem-se de escárnio e cinismo. Entretanto, o concerto dos Portishead fica marcado para uma nova data: 19 de Julho de 2008, juntando-se aos concertos de Leonard Cohen e Lou Reed. Nada como partilhar a felicidade de ver ao mesmo tempo três artistas deste calibre.

Glen or Glenda

Este é o melhor pior filme do mundo. E a homenagem a Ed Wood do Tim Burton ("Ed Wood", 1994) é um dos seus melhores filmes. E já agora: a interpretação de Johnny Depp no papel do realizador é arrasadora. Só falta saber como é possível este filme ainda não ter tido edição portuguesa em DVD.

Comida canibal - 2

"Food - Dinner" - by Jan Svankmajer:

Metáfora da comunicação moderna

"Dimensions of the Dialogue", by Jan Svankmajer:

Páscoa monocórdica



Quando chegará uma Páscoa em que as televisões programarão filmes como "A Última Tentação de Cristo" de Scorsese, "A Vida de Brian" dos Monty Python ou "O Evangelho Sergundo São Mateus" de Pasolini, em vez dos pastelões dramáticos à volta da enésima versão da vida oficial de Jesus Cristo?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Paixões extremas


Ontem a RTP passou o filme "Lua de Mel, Lua de Fel", um drama explosivo do realizador Roman Polanski, que explora as mais obscuras profundezas da perversão sexual. Espantosa abordagem às mais fundas obsessões e paixões humanas extremas. A vida imita a morte, o ódio imita o amor. Eros contra Thanatos. Raramente um filme condensou todo este vulcão de pulsões humanas. Um carrocel de emoções descontroladas. E um brilhante filme de Polanski.

Comida canibal

Uma perspecticva diferente da comida e do acto de comer: "Food" - Jan Svankmajer (a grande influência paa o cinema de animação dos irmãos Quay)

Pixar - pequenos grandes filmes


Uma bela colecção em DVD das melhores curtas-metragens de animação da premiada Pixar (13, para ser exacto). Para usar um cliché: é para miúdos e graúdos.

Quay Brothers


No cinema existem os irmãos Coen e os irmãos Quay. Os primeiros são sobejamente conhecidos e reconhecidos - sobretudo com os recentes Óscares por "Este País Não é Para Velhos". Já os segundos, os Quay, irmãos americanos e gémeos verdadeiros, gozam de muito menos popularidade, mas possuem altíssimo reconhecimento artístico dentro da área em que se movimentam. Fazem cinema de animação, misturando múltiplas técnicas de animação (sobretudo bonecos, marionetas, objectos). O seu cinema é visualmente apelativo, com elaborados jogos de luz e de sombras, ambientes surrealistas e densos, preocupação pelos detalhes narrativos, movimentos de câmara invulgares no universo do cinema de animação.
Tim Burton afirma que o imaginário dos Quay exerceu grande influência no seu cinema. Foram eles que conceberam um dos mais notáveis videoclips da história da música pop - "Sledgehammer" de Peter Gabriel. Por outro lado, Terry Gilliam dos Monty Python elege os irmãos Quay como os mais criativos realizadores de animação dos últimos 30 anos. Vale bem a pena descobri-los.

O indispensável e o facultativo


"As únicas coisas indispensáveis à vida são o ar, o comer, o beber, a excreção e a busca da verdade. O resto é facultativo".

Maximilien Aue, in "As Benevolentes" de Jonathan Littell

quarta-feira, 19 de março de 2008

O espectáculo continua

Dez meses apenas após o desaparecimento de Madeleine, este é o quinto livro sobre o caso e acaba de ser lançado hoje mesmo para o mercado. Até ao final do mês vai ser editado mais um título. Nada como a realidade pura e dura, controversa e mediática, misteriosa e insondável, circense e espectacular, para servir de inspiração literária, perdão, livresca. Há que alimentar o epifenómeno. Não imagino quem possa consumir estes produtos mas percebo que as editoras sabem fazer render o peixe. Gostava de saciar uma curiosidade: quantos destes "escritores" e editores terão lido "A Sangue Frio" de Truman Capote?

Um novo sentido para "Africa"

Quem viveu nos anos 80 lembra-se deste grande êxito: “Africa” do grupo Toto. Nunca nutri grande simpatia nem pela música, nem pelo grupo. Mas há tempos descobri no youtube um incrível guitarrista que fez uma adaptação para guitarra acústica solo do mesmo tema. A forma original como o guitarrista Andy Mckee percute e toca as cordas, é realmente fascinante. E a música “Africa” ganha uma nova dimensão sonora e uma nova sensibilidade estética.

A imagem e o som - uma abordagem

O Som da Imagem ou a Imagem do Som?

Dia do Pai


Franz Kafka - "Carta ao Pai"
É um pequeno mas muito significativo livro que Kafka escreveu ao pai, Hermann Kafka. O escritor sempre teve uma relação muito difícil com o pai, e nesta carta o autor de "A Metamorfose" analisa minucioasamente os contornos psicológicos e emocionais dessa relação, num relato pungente e lírico que revela as perversidades das relações humanas. Não se trata de uma carta de amor, nem de ódio filial declarado. É um ajuste de contas, um estudo profundo sobre a relação pai-filho. Um livro que deveria ser lido tanto por pais como por filhos. A capacidade de análise e argumentação de Kafka transforma esta carta num poderoso documento da literatura universal.

Precisamos de heróis?


"Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis."
Bertolt Brecht

Rest in Peace


Duas mortes no campo das artes, no mesmo dia: uma assaz previsível - Arthur C. Clarke (escritor de ficção científica) aos 90 anos; outra - Anthony Minghella (realizador de cinema) completamente inesperada, aos 54. Há apenas uma relação entre uma e outra personalidade, o cinema.

terça-feira, 18 de março de 2008

Portishead - 11 anos depois


"Third" é o título do terceiro álbum dos Portishead, 11 anos após "Portishead" (1997). Demasiados anos de espera para ouvir a nova obra-prima da banda de Bristol. Mas o tempo, os anos, a espera, esboroam-se após a audição da sublime voz de Beth Gibbons (na imagem). Uma voz que nos empurra para os subterrâneos da profundidade da alma. Uma voz que se ilumina com o avançar da idade, que se depura e se transforma e se regenera. Para além da voz, lúgubre e mística, que nos emociona e nos enternece, as composições são concebidas com uma minúcia de relojoeiro: os ruídos, as guitarras exasperadas, os ritmos arrastados, a envolvência arquitectónica. Tudo faz sentido, todos os sons fazem parte de uma enorme elegia à vida e à morte, à tristeza infinita e ao amor impossível. É difícil destacar um tema de "Third", dada a espantosa magnitude criativa do material apresentado, mas "Plastic", "Nylon Smile" ou "The Rip" são canções suficientemente estonteantes para conferir dimensão homérica a esta nova obra dos Portishead e para fechar em grande a trilogia iniciada com "Dummy".

Tibete - Fight the power!

segunda-feira, 17 de março de 2008

A irracionalidade dos fãs - 2


Há qualquer coisa de cínico e de perverso no adiamento do concerto dos Tokio Hotel (devido a doença na voz do seu vocalista), a tal banda teen que encheu o Pavilhão Atlântico com adolescentes eufóricos. Há relatos de mães que acompanhavam crianças a partir dos 10 anos de idade (!), outras com 11, 13 ou 14 anos. Muitas dessas crianças e adolescentes púberes foram sozinhas, outras em grupos de amigos e amigas. Houve adolescentes que dormiram ao relento durante as 24 horas (ou mais) que antecederam o concerto para poderem abocanhar a primeira fila e poder estar mais perto dos ídolos. Para muitos, era o primeiro concerto de toda a vida. As televisões e jornais mostraram que à saída do Pavilhão Atlântico muitos dos jovens espectadores demonstravam a sua tristeza e frustração com crises convulsas de choro e tremedeira. Falava eu aqui da irracionalidade dos fãs. Afinal o fenómeno atinge todas as classes etárias. E tratando-se de fãs em idade pré-adolescente, a coisa torna-se ainda mais perigosa e imprevisível.

A bela e horrível vida de Leni

É o melhor e mais completo documentário sobre a grandiosa realizadora Leni Riefenstahl (deixemos agora para trás as considerações sobre se era ou não Nazi). Realizado pelo alemão Ray Müller, está agora disponível a primeira parte de "The Wonderful, Horrible Life Of Leni Riefenstahl". Compreende várias fases da vida artística e pessoal de Leni, desde os tempos do Nazismo até à realização de documentários da vida submarina e de tribos africanas. Uma vida feita de paradoxos e de estigmas históricos. Basta carregar em play: The Power of Image - Leni Rienfenstahl

Jazz & blues na terra do Tio Sam


Em conversa com um produtor/agente musical americano que agencia músicos de blues em todo o mundo, Charles Burch, confidenciou que a pior e mais difícil área musical para trabalhar nos EUA é a área do jazz e, logo a seguir, a do blues. Não admira. Justificou dizendo que são géneros musicais que não são "rentáveis". Há bons festivais temáticos mas muito centralizados em escassas cidades americanas. Apesar da qualidade de muitos músicos que ainda praticam hoje a velha tradição do blues e do jazz, na generalidade do território norte-americano, faltam salas que queiram programar jazz e blues de forma continuada ao longo do ano. Para além disso, o interesse da comunicação social e do público em geral é diminuto (apesar de serem géneros musicais que fazem parte da história da América). Como não poderia deixar de ser, o pop e o rock são os géneros musicais que centralizam a atenção do público e dos media, e as restantes manifestações musicais (da electrónica à música experimental, do rock alternativo à erudita contemporânea ou à música do mundo) gravitam à volta desse universo, expostas em pequenos festivais, salas de concertos temáticas, eventos ligados às artes, etc.
No panorama português, há que referir que existem bons festivais de jazz e de blues espalhados por várias cidades (está ainda a decorrer um de blues no Teatro Municipal da Guarda). Por outro lado, há que saudar a comemoração do 60º aniversário do Hot Clube de Portugal, responsável máximo pela formação de jovens músicos e pela divulgação do melhor jazz mundial ao longo destas seis décadas de actividade (muito à conta do inestimável contributo e dedicação de Luís Vilas-Boas).

Pedro Mexia - a (boa) surpresa do dia


Ao que consta, a notícia já tem um mês mas só agora veio a público (e ao Público): Pedro Mexia, ensaísta, poeta, cronista, crítico literário e de cinema, foi nomeado pelo Ministro da Cultura (por indicação de João Bénard da Costa), como futuro subdirector da Cinemateca Portuguesa/Museu do Cinema. No meu ponto de vista, é uma notícia surpreendente mas muito bem vinda. Pedro Mexia foi, como ele próprio refere, “formado na cinemateca” e nutre uma paixão assolapada pela arte do cinema. Foi crítico de cinema durante um ano nas páginas do suplemento de cultura do Diário de Notícias e traduziu a pequena bíblia sobre cinema “Notas sobre o Cinematógrafo” do realizador francês Robert Bresson – precisamente, uma das referências cinematográficas de Mexia. Parece-me que, Pedro Mexia, sendo de uma geração nova e vindo de um universo não directamente ligado ao cinema e aos seus grupos de lobbies, poderá ser uma mais valia no trabalho de programação e coordenação de uma instituição como a Cinemateca. Felicidades e bom trabalho, é o que desejo para as novas e exigentes funções do autor de “Fora do Mundo”.
Nota: Pedro Mexia é também um blogger influente.

A música de "Haverá Sangue"


Parece que João Lisboa (Expresso) tomou o gosto dos textos sobre bandas sonoras para filmes. E ainda bem. Há algumas semanas atrás foi a recensão sobre as melhores 25 bandas sonoras de sempre. No Expresso desta semana volta com uma crítica à sublime música do filme "Haverá Sangue", composta pelo guitarrista Jonny Greenwwod (na imagem), dos Radiohead. Lisboa inicia o texto dizendo, com toda a propriedade, que os "primeiros vinte minutos do filme são cinema em puríssimo estado de graça: apenas imagem e som/música sorvendo-nos para dentro das mesmas entranhas da terra de que Daniel Plainview tanto aparenta desejar libertar-se (...)."
Na verdade, a música do filme de Paul Thomas Anderson, funciona como uma verdadeira alavanca dramática, empurrando o espectador no mergulho para o abismo das paisagens (físicas e psicológicas) que o filme mostra. Os tais 20 primeiros minutos de filme que fala o crítico do Expresso, são antológicos na forma expedita como revela uma espécie de regresso à matéria essencial do cinema do período mudo. A música de Greenwood acentua a solidão do personagem principal Daniel Day-Lewis, da mesma forma que extravasa a dimensão meramente territorial daquelas paisagens inóspitas e austeras.

domingo, 16 de março de 2008

A concorrência da Criterion


Já tinha explanado neste post que a Criterion era uma editora de DVD que fazia perder a cabeça a qualquer cinéfilo. Mas esqueci-me de referir que essa editora tem concorrência à altura e chama-se Kino on Video. O seu catálogo de filmes é de uma qualidade desmedida, não só pela qualidade dos prórpios filmes, mas também pela qualidade das edições, muitas delas remasterizadas e com extras exclusivos. É o que acontece que a obra-prima "O Couraçado Potemkine" de Eisenstein, totalmente restaurado digitalmente (é actualmente a edição DVD que a Kino vende mais). O site está extremamente bem desenhado e completo. Basta dizer que existe a possibilidade de fazer pesquisa por realizador, actor, compositor, argumentista, título de filme, país, género cinematográfico, etc. Apesar dos preços praticados serem relativamente mais em conta do que os da Criterion, convém ter uma carteira assaz recheada para adquirir todas (todas? Bastariam algumas) das preciosodades editadas.

Robert Mapplethorpe

Fotografia histórica que marcou uma fase decisiva de dois jovens artistas no ano de 1976: Philip Glass (compositor e músico) e Robert Wilson (encenador, coreógrafo, performer - trabalhou com William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Tom Waits e David Byrne). Glass e Wilson trabalhavam na altura na ambiciosa ópera-que-revolucionou-a-ópera "Einstein on the Beach". Não menos importante: a fotografia foi tirada por um dos mais importantes fotógrafos americanos dos anos 70 e 80: Robert Mapplethorpe

Monk, Monk, Monk! - 5

Foi uma banda muito pouco convencional para a época. Constituída em 1966, finada uns anos depois, os The Monks exerceram grande influência no despontar da estética punk e da cena musical mais alternativa das décadas seguintes. Mark E. Smith, dos The Fall, considera os Monks uma das principais influências (tocaram há dois anos juntos). Um visual controverso, aliado a músicas quase despidas de melodias, mas em contrapartida pejadas de ritmos repetitivos, devaneios de órgão e de banjo, e algum experimentalismo guitarrístico à mistura, fizeram dos Monks uma referência para várias gerações de músicos de tendência mais arty. Passados 40 anos (!), ainda tocam ao vivo (um dos seus elementos originais morreu em Janeiro último), e apresentam-se ao vivo com esta espantosa energia quase free-rock:

sábado, 15 de março de 2008

Monk, Monk, Monk! - 4

Monk, Monk, Monk! - 3


Se há música em contacto directo com a divindade, essa música é a dos monges (monks) budistas tibetanos. De todas as tradições musicais do mundo (world music), a música tradicional do Tibete é aquela que exerce um maior poder de fascínio e emoção. Um fascínio quase mágico. Nunca me esquecerei, há muitos anos, quando ouvi pela primeira vez a música ritual de uma orquestra tibetana. O canto gutural tântrico dos monges, capazes de emitirem dois a três tons diferentes ao mesmo tempo, os espantosos instrumentos de sopro e os ritmos das percussões repetitivas (pratos, címbalos e pequenos tambores) fazem desta música uma experiência no limite do sensorial, do religioso (mesmo para quem não é crente). A cultura tibetana refere que os monges que conseguem cantar determinados cantos de maior complexidade harmónica, são aqueles que já alcançaram um nível de pureza espiritual mais elevado. Um dos grupos que mais tem feito para a divulgação da arte musical tibetana são os Gyuto Monks, que têm percorrido o mundo com as suas actuações de grande impacto musical e místico. Philip Glass, um busdista assumido, soube como ninguém apreender a linguagem da música tibetana para o excelente filme "Kundun" (1997) de Martin Scorsese, tendo composto uma banda sonora de impressionante envolvência emocional.

Monk, Monk, Monk! - 2


Meredith Monk é uma das mais fascinantes cantoras do universo vocal feminino. As inovadoras técnicas vocais que desenvolveu e as composições que escreveu para várias formas de expressão (cinema, performance, teatro, dança, instalação) fazem de Meredith Monk um vulto da arte contemporânea. A arte do experimentalismo vocal não seria o mesmo sem o contributo da autora de obras essenciais como "Dolmen Music", "Do You Be", ou "The Book of Days". Colaborou com meio mundo da vanguarda artística e o seu trabalho é reconhecido mundialmente. Regressa a Portugal no dia 26 de Abril, numa actuação no CCB.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Monk, Monk, Monk!


Monk é um apelido célebre e distinto no mundo do jazz. Tem a mesma força representativa de nomes como Miles, Parker, Gillespie ou Coltrane. A mesma força criativa e inovadora. Thelonious Monk (1917-1982) foi um singular pianista e compositor norte-americano que elevou a linguagem jazzística a um patamar de grande qualidade estética, fundando (com Charlie Parker e Gillespie) o bebop. O seu estilo de tocar (e abordar) o piano era o reflexo da sua personalidade multíplice, imprimindo às teclas brancas e pretas um misto de impetuosidade rítmica com silêncios dramaticamente intontidos. Começou a gravar na década de 40 para a mítica editora Blue Note do século XX, para não mais parar até quase à data da sua morte (vítima de ataque cardíaco) em 1982 e tocou com alguns dos nomes cimeiros do panorama jazzístico internacional: Charlie Parker, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Art Blakey, Max Roach e Sonny Rollins. O seu reportório oscila entre composições originais (estruturas harmónicas subversivas e desvarios improvisacionais) e reinvenções de standards do jazz. Como muitos outros artistas insubmissos, Thelonious Monk era tido como um louco (na esteira de um Sun Ra), um génio excêntrico e perturbado que criava de forma obsessiva e atormentada, experimentador de mundos em busca da perfeição interpretativa e composicional. Thelonious Monk tocou uma única vez em Portugal, integrado nos Giants Of Jazz, no l.º Festival de Jazz de Cascais, em 21 de Novembro de 1971.
Uma lenda musical incomparável do século XX.

Ramos Rosa - o poeta da libertação

Um grande, grande poeta português poucas vezes lembrado. Agora pode ser alvo de um reconhecimento internacional.
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"A poesia tem sido para mim uma forma de libertação. Não se pode dizer que seja uma expressão simples, fácil, o que a poesia procura é algo que de certa maneira ela não consegue admitir. Quer dizer, a finalidade do poeta é escrever, criar um texto que tenha uma certa coerência, que tenha a coerência da incoerência (como diz um crítico francês). Mas é o que está para além das palavras, é o horizonte das palavras e é realmente o que é fundamental. Não só as palavras poéticas me fascinam mas aquilo para que elas apontam, o horizonte para que apontam, o espaço para que elas se dirigem é que é realmente a realidade imaginária e real; essa é que é a finalidade porque há em nós algo que é indefinível, incomunicável e indescritível."
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Escrevo-te com o Fogo e a Água
Escrevo-te com o fogo e a água.
Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animalperfeito e suave.
Um fruto repousado,uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado, uma pergunta que não ouvi no inanimado, um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu, o grande sopro imóvel da primavera efémera.
In "Volante Verde", 1986

quinta-feira, 13 de março de 2008

A declaração de independência de Björk

É o tema mais abrasivo e industrial do álbum "Volta" de Björk e serviu de arma de arremesso político num concerto que a artista deu em Xangai. Refiro-me ao tema "Declare Independence", que a cantora interpretou refirindo-se à causa do Tibete livre. As autoridades chinesas não tardaram a lançar um comunicado que a autora desta ousadia não voltaria a colocar os pés na China. Um acto de bravura e de chamada de atenção para a opinião pública mundial acerca da situação de ocupação do Tibete pela China. Já que os políticos não têm iniciativa...

A cantora careca


Num mundo onde grassa a violência indiscriminada, a guerra e as atrocidades, quem mais poderia denunciar esses males senão a israelita Meira Asher? E fá-lo com uma entrega emocional rara. Num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, num misto de voz conspurcada e de intenções expiatórias, Asher é uma cantora e performer provocadora, insubmissa, politicamente incorrecta e frontal. Na música como na mensagem. Bastam dois dos seus álbuns para confirmar estas premissas: “Dissected” e “Spears Into Hooks”, poderosos e inquietantes testemunhos sonoros sobre os males do mundo (com o conflito israelo-árabe sempre como pano de fundo). Já tocou ao vivo diversas vezes em Portugal - a primeira vez na cidade da Guarda. Ao contrário da personalidade lúgubre de uma Diamanda Galás, Meira Asher revelou, nesta entrevista, ser expansiva e simpática, falando tanto de música como de política. Coisa surpreendente para quem tem uma opinião cada vez mais negra e pessimista sobre o mundo e as pessoas que nele habitam.

- O seu trabalho na música teve início há 20 anos atrás. Aprendeu a tocar diferentes tipos de instrumentos, sobretudo piano e percussão. Em poucas palavras, como descreveria o seu percurso musical nestes 20 anos?
- Em poucas palavras é difícil (risos). Eu nasci em Israel, um país com uma grande combinação cultural. Foi neste país que eu aprendi música, que aprendi a tocar piano e a expressar as minhas emoções através da música. Em criança estudei piano e mais tarde percussão. Depois, em adolescente, a fotografia apaixonou-me. Mas foram processos paralelos e muito enriquecedores. O trabalho do dia-a-dia era o mais importante para mim, conseguir os objectivos a que me propunha como artista. Para isso, viajei muito, e foi com as viagens que aprendi a solidificar o meu percurso musical…

- A propósito de viagens, porque é que deixou Israel e se mudou para a Holanda?
- Mudei-me motivada por esse impulso de viajar e porque senti necessidade de estudar sonologia -estudo do som sob a perspectiva artística e científica – na Holanda. Fiz um curso de um ano mas decidi continuar por mais tempo. Acabei por ficar, ano após ano, e comecei a envolver-me em projectos cada vez mais ambiciosos e multidisciplinares, pelo que me encontro aqui desde 1999.

- E quando é que aconteceu o exacto momento em que sentiu a necessidade de fazer música para expressar a sua visão do mundo?
- Creio que essa necessidade estava já na minha personalidade, não foi propriamente o tipo de acordar um dia e dizer “bom, hoje vou começar a fazer música minha”. Sempre foi óbvio para mim que nunca iria tocar para sempre as tablas indianas segundo os trâmites da tradição indiana. Assimilei a filosofia e o saber indiano de forma a enriquecer a minha experiência musical, mas depressa senti o fervor individual de fazer coisas diferentes e originais. Foi aí que comecei a sentir essa necessidade de experimentar criar a minha própria música.

- Nesse sentido, o seu primeiro álbum, “Dissected”, foi um forte testemunho dessa sua visão acerca dos problemas sociais e políticos aos quais tem prestado atenção desde essa altura até hoje. Pergunto: depois destes anos todos, alguma coisa mudou na sua percepção desses mesmos problemas?
- Não, nem por isso. Acho até que fiquei ainda mais radical e clarividente na minha visão das coisas.

- É que a sua música aborda conflitos, guerras, atrocidades, violações… ficamos com a sensação de que odeia o mundo.
- Não se trata de ódio, mas sim de preocupação. É um instinto. Foi por isso que a arte me atraiu, pela possibilidade de me permitir falar dos problemas sociais que o mundo enfrenta a toda a hora. Tem-se tornado para mim cada vez mais evidente que não me interessa fazer arte pela arte, mas sim arte com preocupações ideológicas ou políticas. Nunca me interessou a música com fins comerciais, mas sim a música como reflexo das minhas preocupações. Interessam-me os problemas das crianças que são obrigadas a ir para a guerra na Serra Leoa, o estatuto humilhante e escravizante das mulheres em muitos países, as atrocidades e mutilações perpetradas em nome de um Deus, etc. Há que ter uma visão do mundo, ter uma mensagem forte para passar no sentido de tentar mudar alguma coisa, ou pelo menos, chamar a atenção para esses problemas.

- Devido ao facto da sua música possuir essa forte componente politizada, significa que a música resulta sempre da sua análise da sociedade e do mundo?
- Nem sempre. Prefiro caracterizar a minha música baseada em assuntos ou problemas sociais, e não políticos. Isto porque a política está conotada, hoje em dia, com um mundo demasiado vil, indigno, sujo... A minha abordagem é sobretudo social, a política vem por acréscimo mas não é o ponto de vista essencial para o meu trabalho.

- Qual é o principal papel da sua música num mundo tão complicado como este? É o de tentar tornar o mundo menos violento ou, ao invés, colocar os holofotes no centro desse mundo violento para que todos o possam observar?
- Não, de todo. O papel de um artista é o de servir de espelho do que vê e sente. E a inteligência de um artista reforça-se quando consegue aprofundar a um nível mais fundo, esse olhar sobre a realidade das coisas. É assim que eu interpreto o papel da música no mundo. Eventos como o Live 8 são interessantes mas não mudam definitivamente o curso das coisas, e há muitos interesses por detrás…

- E como interpreta o momento actual do conflito político entre Israel e a Palestina e tudo que diga respeito às questões do Médio Oriente?
- Estive este último Verão em Israel e fiquei realmente muito feliz ao constatar um desanuviamento político do conflito entre ambas as partes por via da evacuação da Faixa de Gaza. Todavia, o conflito não irá solucionar-se apenas com a evacuação dos territórios ocupados porque há muitos grupos extremistas infiltrados dos dois lados que não querem a paz, querem semear o ódio e a discordância. A maior parte dos israelitas e palestinianos querem a paz, mas esses grupos de radicais não permitem uma solução imediata para o problema. Ainda assim, quando estive em Israel, senti momentos muito emotivos pela melhoria das relações, dado que a população dos dois lados passou por muitos traumas e muitas situações de uma tensão insuportável, mas…

- …Mas ainda ontem Israel voltou a bombardear Gaza!
- É verdade! E o Hamas ripostou assassinando dois soldados israelitas. Para ser sincera, esta é uma situação muito complicada que não irá terminar nunca. As populações têm sido objecto de muitos e muitos anos de sofrimento e estão extremamente cansadas desta situação que não tem fim. Tem havido tal destruição de certos elementos da vida que nos dois lados há uma espécie de “doença nacional”. Isto é um longo processo que vem de há 40 ou 50 anos, faz parte da evolução dos dois povos e é necessário saber viver com isso.

- Se pudesse encontrar-se pessoalmente com Ariel Sharon, o que lhe diria?
- (risos) Acho que lhe diria exactamente o que lhe estou a dizer a si. Dar-lhe-ia coragem para continuar com este processo de evacuação dos territórios ocupados e que parasse com os estúpidos movimentos de fanáticos que apenas pretendem colocar eternos obstáculos à resolução do problema israelo-árabe. Sharon não é um santinho e também cometeu crimes de guerra, mas é o homem que actualmente está a liderar a situação e é ele que deve continuar a fazê-lo. Pior seria se Benjamim Netanyahu regressasse ao poder em Israel.

- Voltemos à música. O seu segundo álbum, “Spears Into Hooks”, editado em 1999, continha peças musicais muito fortes, nas quais misturava ritmos electrónicos com samples de vozes agonizantes, instrumentos tradicionais com textos sobre o holocausto, o incesto, o sofrimento das crianças, a tortura… Apesar de toda esta rudeza e austeridade sonora, este foi o disco decisivo na sua carreira?
- Sim. Foi uma espécie de ponto de viragem, um boom na minha carreira. No início apenas me interessava tocar ao vivo com músicos, não me importava muito em gravar discos por achar que o estúdio era um sítio artificial. Com a experiência adquirida com outros músicos acabei por aprender a gostar de manipular o equipamento de um estúdio, sobretudo electrónico. Foi pela primeira vez no “Spears Into Hooks” que surgiram os primeiros beats electrónicos, porque os músicos que nele participaram estavam fortemente ligados ao universo da electrónica. Por isso admito que foi um ponto forte na minha carreira, em termos estéticos e em termos de conteúdo.

- Qual é exactamente o papel da electrónica no seu trabalho?
- Para mim tem de haver sempre uma tensão entre a electrónica e a instrumentação acústica, entre a parte orgânica e a artificial, de modo a criar essa inquietante sensação à beira da tensão entre os vários elementos da música.

- A sua forma de cantar é muito expressiva, muito própria. Usa spoken word, declamações serenas e poéticas, sons guturais… Como reage quando certos críticos referem que faz parte do triunvirato de cantoras “malditas” – juntamente com Lydia Lunch e Diamanda Galás – com abordagens vocais similares?
- Muito sinceramente não sei bem o que dizer sobre isso. (risos) Talvez. As pessoas têm sempre a tendência de catalogar as coisas, mas para mim a catalogação tem mais a ver com produtos para vender e comercializar do que com arte (risos).

- Para terminar, em jeito de provocação: acredita em Deus?
- Não! (risos sonoros)
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Entevista conduzida por Victor Afonso em Novembro 2005
Publicada na revista Mondo Bizarre